12.2.09

José, para onde?

Dia desses, minha cidade natal foi notícia de capa da Folha (1º/2/2009). Fiquei triste. Afinal, não era dia 31/10, aniversário de seu mais ilustre filho, Carlos Drummond de Andrade. De coisa boa não se tratava mesmo, pois reportava-se que até o Carnaval fora cancelado este ano na minha terra tão querida. As más novas informavam acerca da ameaça de desemprego por causa da tal crise econômica.

Sinceramente, espero que Itabira — que significa "pedra que brilha" — não passe de "apenas uma fotografia na parede" para a Vale na hora de tomar decisões que podem afetar 70% da economia desse município. Vale lembrar que é de lá que essa imponente companhia extrai o minério que já encheu seus cofres nos tempos de bonança, transformando em buraco o maior patrimônio natural da cidade que é o Pico do Cauê, de onde, como diz a lenda, se podia ver Belo Horizonte, que está a mais de 100km de distância. Nessas horas, fico me perguntando, como todo bom itabirano, "E agora, José?". Do lado de lá, do lado dos poderosos, de quem vale, alguém deve matutar: "José, para onde?". (Por favor, não digam o óbvio — "Rua!")

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19.1.09

O nome dele é Martin Luther King Jr.

No dia de hoje, quero trazer à memória o nome de um homem cuja vida tomo como referencial, Martin Luther King Jr. Hoje, comemora-se em sua terra natal o feriado que o homenageia dando ao dia o seu próprio nome, privilégio reservado a apenas mais duas outras personalidades, George Washington e Cristóvão Colombo.

Nascido em um ambiente hostil a sua pessoa por causa da cor de sua pele, King não deixou de encontrar esperança entre a aurora e o crepúsculo. Fez a sua parte. Estudou Sociologia e Teologia, qualificando-se como um dos melhores quadros para mobilizar outros homens e mulheres que se identificavam com sua resistência às forças de opressão que castravam a liberdade de todos os cidadãos.

Na condição de pastor protestante, King não se confinou à clausura das quatro paredes de sua igreja, sentindo-se tocado para transformar a realidade para além das fronteiras religiosas. Não fez de sua luta uma religião, mas de sua religião uma luta.

De modo que eu sinto uma profunda vergonha de ter sido pastor dentro da mesma tradição de fé desse homem e estar longe de me engajar em uma causa de tal envergadura. Ainda há tempo. Completarei um quarto de século em 2009. Se errante fui, errante continuarei. Mas não quero errar sem causa.

Como devoto de São King, amanhã, na ocasião da posse de Barack Obama como presidente dos EUA, acenderei uma vela para a causa pela qual ele lutou, certo de que nem sempre se pode colher os frutos daquilo que se plantou. Como seria bom se aquele que fora o mais jovem ganhador do Prêmio Nobel da Paz estivesse aqui para celebrar essa vitória de sua causa! Mas creio que ele estará, porque ninguém foi feito para morrer, e sim para ressuscitar.

Foi assim com Jesus. Será assim com King. Eu acredito em Jesus. Eu acredito em King. Suas causas estão vivas e jamais serão mortas. Apesar da cruz, apesar do tiro. Eis que na morte surge a vida. Ressurreição! Lutarei por Jesus, lutarei por King. Nem o madeiro nem a bala poderão silenciar a luta de quem “tem um sonho” por um mundo de justiça. I have a dream today — o texto sagrado do meu dia.

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7.1.09

“Isto é o meu corpo” (Jesus de Nazaré)

Quando fui buscar o jornal na minha porta hoje, estava cantando os seguintes versos: “Agora o que mais importa / É renascer na esperança / É renascer, renascer na esperança” (Jaci Maraschin). Tamanha surpresa foi, logo depois, defrontar com a imagem de um corpo de uma menina achada em meio aos escombros da atual guerra entre Israel e Hamas. (Folha de S. Paulo, 07/01/09)

Lembrei-me de quando celebrei o primeiro memorial da Ceia do Senhor (Eucaristia), na minha curtíssima experiência pastoral protestante. Pouco tempo atrás. Era na semana em que a nossa faixa de Gaza carioca pegava fogo. Ali, durante o culto, preguei um sermão sobre memória e esperança, que dizia o seguinte no final:


Quero terminar esta palavra fazendo um apelo à sua memória. Mas não quero lembrar você de nada não. Meu desejo é que você apenas use a sua visão para não se esquecer de algo que vem nos afetando a cada dia, quando acompanhamos os noticiários. Há uma foto que saiu na capa do jornal Folha de S. Paulo, na última quinta-feira (27/06/07). Lá estão, corpo e sangue, representando o resultado de nossa amnésia. Esse corpo e esse sangue poderiam ter outro destino, mas estão ali, clamando ao mundo todo por justiça. Nem sei de quem se trata ali, debaixo daquele pano, mas sei que é alguém fruto da violência que tanto mancha a nossa Cidade Maravilhosa. Esta pessoa certamente nasceu num lugar miserável, onde não havia outra opção a não ser entrar para o crime. Vamos nos calar diante disso?

O corpo e o sangue de Jesus são símbolos de esperança. Mas são também símbolos da memória. Precisamos de memória! Precisamos de memória social! Precisamos lembrar que os hebreus sofreram injustiça, que Jesus sofreu injustiça, mas que muita gente hoje ainda continua sofrendo injustiça aos nossos olhos e nós não fazemos nada além de virar a página do jornal e esperar mais um dia chegar.

A mim e a você Jesus disse “fazei isto em memória de mim” (v. 19), porque ele quer ser lembrado. Ele será lembrado cada vez que lembrarmos dos injustiçados da cidade, do estado, do país e do mundo. Cabe a todos nós vivermos esta esperança cada vez que comermos deste pão e bebermos deste cálice. Lá, no pão, estavam as marcas das injustiças. Lá, no cálice, estavam as marcas do derramamento de sangue, da violência. Dois problemas contra os quais lutávamos ontem, lutamos hoje e lutaremos sempre, com memória e esperança. Que para tanto Deus nos ajude. Amém.



As injustiças continuam. E Jesus ainda quer ser lembrado. Porque esses corpos aí, cariocas ou palestinos, são os corpos daquele que acabou injustiçado na cruz. O que mais importa agora, portanto, é que a esperança renasça em nossa memória.

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30.12.08

Religião e cultura

Acredito que a cultura é tão religiosa como a religião é cultural. Vide, exempli gratia, a guerra entre israelenses e palestinos. Fica difícil dizer o que se trata de religião e o que se trata de cultura.

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9.12.08

Capitalismo carpe diem

Acho que a so called “crise financeira” dificilmente afetará o subúrbio do Rio de Janeiro, realidade dentro da qual estou inserido em corpo, casa e igreja. A cultura aqui se resume em arrumar dinheiro, sair às ruas, encher ônibus, metrô e trem, para gastar, gastar, gastar. Há sempre um bom lugar e uma boa coisa para onde direcionar o mínimo de pecúlio que resta no bolso, na bolsa, na carteira. Ene lojas, ene shoppings, ene camelôs (Pirataria? Quem liga pra isso além da TV?). Ganhar para gastar é uma promessa de felicidade. Afinal, vivendo sob um forte sol, que só serve para lembrar aos suburbanos cariocas da impossibilidade de passar o ano todo na praia, carpe diem é uma regula fidei, e save money, uma heresia em língua estranha. Presidente Lula, relaxa, é carnaval!

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10.11.08

Sem Obama

Acho oportuno exclamar: Que vergonha para o Brasil! Apesar de nossa população afrodescendente ser bem maior que a dos Estados Unidos, estamos longe de ter um Obama concorrendo à presidência em 2010. Sem dúvida, nosso tabu racial ainda não foi quebrado, o que, por conseguinte, significa reconhecer que a mudança ainda não chegou, pois, diferente do que ora se observa naquele país, as oportunidades aqui não são para todos-inclusive-os-negros — vocês sabem, isso não é redundância. Quero, assim, lamentar, sentindo as dores de minha mãe África, que pouco se pode esperar do fato de já sermos um país de maioria negra além do aumento do número de bandidos.

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27.8.08

Jesus e a crise máscula

Minha professora de Teologia Feminista dizia que a busca teológica pelo Jesus histórico sempre revelava alguma crise pela qual os homens passam, tanto que não há teóloga preocupada com isso. Deve haver algum pingo de verdade nesta afirmação. Afinal, estou há mais de seis meses lendo um pequeno livro sobre a vida daquele homem de Nazaré e não quero nem pensar na possibilidade de terminá-lo.

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8.8.08

Pequim versus fale o que quiser?

No Brasil, vivemos o free speech boom. Há espaço para dizer o que se bem entender. Jornais impressos existem aos mil. (Quem quiser abrir um, fique à vontade!) As emissoras de TV também descobriram que dar voz ao povo pode dobrar o faturamento, pois significa ibope. Sem contar isso aqui denominado internet, onde qualquer um pode ter um lugar virtual — blog ou perfil em sites de relacionamentos, por exemplo — para publicar o que der na teia.

Dizem que na China não é possível falar o que quiser. A imprensa é controlada e a web censurada. Eu nunca fui lá para saber. Mas não gosto dessa propaganda ocidental de que os chineses são um bando de bois em direção ao matadouro montado por um governo tirano. E que eles estão pior que nós por não poderem expressar suas idéias.

A terra de Confúcio peca sim por não permitir que o cidadão se sinta livre em sua expressão, porém não suporto a pretensão típica do ocidente de achar que os nossos métodos são os melhores, e, por conseguinte, dignos de serem exportados para os quatro cantos do planeta.

Somos tão defeituosos quanto. E ai daquele que diga algo que nos desagrade! Entre os brasileiros, acostumamos a ouvir a pior de todas as censuras: “Você sabe com quem está falando?” Quando a liberdade é castrada aqui, ela atinge a alma. Porque o sujeito sabe que sua condição social o impede de se sentir livre de maneira plena. (Na igreja, já me alertavam quando criança: “Cuidado boquinha o que fala!”)

Sou contra qualquer tipo de censura, seja aquela produzida de modo descarado em Pequim, seja esta nossa velada no comportamento social tupiniquim. Medalha de latão para ambas! Censura? Nem aqui nem na China! Liberdade já!

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25.4.08

Não responda!

É possível viver os ideais em que acreditamos? Pelo menos alguém respondeu a essa questão afirmativamente. Assim o fez, porque era o próprio ideal encarnado, habitando entre nós. (No princípio era o ideal, e Deus sempre foi ideal — para lembrar que o logos nunca foi desse mundo; Platão que o diga!)

Lendo Ernest Hemingway (1899-1961) aprendi que um ideal pode se transformar em desilusão. O conto “In Another Country” expressa o fim do idealismo de jovens norte-americanos que se apresentaram como voluntários para servir numa guerra que não era sua. No front, ficaria uma das mais importantes contribuições ianques para a democracia, que inspirou aqueles rapazes a lutar: é preciso unir forças em prol da liberdade de todos os povos.

Na prática isso nunca aconteceu. Ao invés de um mundo livre, criou-se um mundo cada vez mais preso à intolerância na relação com o outro, e escravo de seus próprios artifícios beligerantes, que matam, segregam e produzem o mal muito mais do que dão vida, promovem inclusão e fazem o bem.

Qualquer pensador entusiasta dos ideais iluministas dificilmente imaginaria um mundo tão avançado na tecnologia e tão retrógrado nos relacionamentos humanos. O cúmulo dessa situação pôde ser visto no encontro entre os dois homens mais poderosos do planeta política e religiosamente falando. O presidente George W. Bush disse que “toda vida humana é sagrada”, para se juntar ao Vaticano na luta contra a legalização do aborto. No entanto, parece que a vida das mães, que morrem no lugar do bebê, bem como as vidas inocentes ceifadas nas guerras contra o so-called “terrorismo”, passam longe da sacralidade do mandatário. A Sua Santidade Bento XVI engrossou o coro conservador cristão, que faz cruzada contra o avanço da religião muçulmana no mundo, enquanto quis deixar uma boa impressão ao declarar-se “ansioso” para encontrar-se com “todas as comunidades cristãs e representantes de muitas tradições religiosas” dos EUA. Bento e Bush, católicos e protestantes, política e religião: tão parecidos!

Talvez aquilo que a tradição protestante da qual faço parte melhor contribuiu para a humanidade foi a insistência no princípio de separação entre Igreja e Estado. A partir deste princípio, as democracias modernas buscam construir o ideal de um governo laico. Isso quase nunca foi vivido, nem pela política, tampouco pela religião. Aqueles batistas, anglicanos radicais, inspiram pouco, por exemplo, os batistas do Brasil, que tendem a preferir o fundamentalismo conservador, produzido principalmente no ambiente de uma classe média sulista ressentida até hoje por perder a Guerra de Secessão (1861-1865) para o norte progressista.

Nesse reduto de pessoas, onde até um dia desses queimavam outras pessoas de cor de pele diferente da sua, surgiu um homem que se sacrificou para encarnar o ideal de igualdade, liberdade e fraternidade entre todas as pessoas. Martin Luther King, Jr. (1929-1968), um pastor batista que viveu por uma causa para morrer por ela. Não fez de sua religião uma luta política, mas da luta política sua religião.

“Eu tenho um sonho” (I have a dream), é sua mais emblemática frase. Pessoas que sonham sofrem por viver em prol daquilo que lhes incomoda em sono e acordadas. Não respondem perguntas irrespondíveis, porque são transformadas pela profundidade da própria questão. Luther King não respondeu, mas se incomodou com a pergunta, o que resta a todos nós seres humanos fazer. Lá no Calvário, no entanto, teve um que foi capaz de responder, assumindo assim a própria condição de ideal encarnado, ou melhor, respondido. “E vimos sua glória!”

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27.3.08

"D"

A, B, C... Eis o nome do novo demônio que paira sobre o ar da Cidade Maravilhosa: não o digam, por favor; melhor deixar só a letra inicial, mesmo assim batendo na madeira. “Deus me livre”, deve está dizendo qualquer mineiro do interior que vê na TV o estrago que um invertebrado dos quinto anda provocando na terra do Cristo. (Oh, Redentor, oxalá tuas mãos se movessem aí no Corcovado para nos ajudar a esmagar esses emissários do mal!) Das Gerais, no entanto, ninguém vê que os pobres mortais daqui de baixo deram lugar ao diabo. A começar das potestades de cima que, através dos poderes (in)competentes, demoraram para agir. (Até agora o dondoco do senhor prefeito, da facção Democratas, acha que não estamos numa epidemia!) E assim as hostes da maldade iludem o povo. (Ô coitado!) Vós, donzels e donzelas, outrora não tampastes as vossas caixas d’água e piscinas, ora apontais o dedo. Salve o país da dedada! (Perdoa-nos, Senhor, porque trocamos aquele maior dos teus mandamentos pelo dedai-uns-aos-outros.) Do jeito que o demo gosta. Demonstrado está, ademais, que o mal imperando, a indústria lucra. A de dedetização produz superfaturados líquidos químicos com água a quase R$ 5. A farmacêutica deixa a desejar no preço dos repelentes — quando há para vender, cerca de R$ 12. E o comprimido? Mais de uma cartela de R$ 2 por dia. Desisto, deve haver um jeito de exorcizar a letra "d" do alfabeto. Deus-dará!

(À Priscila, suposta infectada pela famigerada ocupante da quarta posição no... Ah, vocês sabem!)

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20.3.08

Serve até como epígrafe

Na Idade Média as pessoas eram religiosas secularmente falando. Hoje, são seculares religiosamente falando.

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28.2.08

Sobre o dormir

Difícil entender como os cristãos conseguem encontrar descanso no travesseiro quando há tanta injustiça no mundo. Deve ser por isso que Jesus não tinha onde reclinar a própria cabeça — certamente não era para evitar o torcicolo.

Sono e religião sempre foram interligados. Desde os tempos mais antigos, enquanto os soldados se fortalecem no quartel, os sacerdotes repousam no templo, imitando os requietos deuses.

Ah, se essa realidade pudesse ser diferente! Se os que dormem fossem despertados! Pena que as vozes que constituem o elemento crítico-profético dos arautos religiosos são sempre silenciadas e forçadas a sonolências profundas, como foi com aquele a quem a cruz tentou calar.

As injustiças não dormem, mas os justos sim. Por isso, ainda está para nascer o dia em que a religião será uma religião acordada para o sofrimento injusto do outro. Uma religião que, pela justiça, paga o preço da insônia.

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20.9.07

A língua

Certos elementos são determinantes nas relações sociais. Um deles é a língua, que é o centro da comunicação, possuindo uma dinâmica que move as civilizações, as sociedades, as tribos, as pessoas, enfim, as relações humanas.

A língua vem antes da comunicação e, por isso, carrega uma série de fatores, que se constituem como um conjunto de atitudes e sentimentos dos falantes. Estes fatores têm a ver com o ambiente cultural no qual cada pessoa está inserida. Dados como faixa etária, sexo, região e grau de escolaridade abrem um horizonte para se detectar os traços lingüísticos em uma dimensão concreta.

Existe um certo preconceito sobre a forma de falar do presidente Lula. Embora há quem diga que esse seu jeito não passe de um esforço maquiavélico para vender a imagem de alguém que fala uma língua mais popular para continuar ganhando o prestígio das massas, o atual homem mais importante do Brasil é fruto de um ambiente sociolingüístico, moldado por uma maneira de se falar bem diferente daquela que ensina o professor Pasquale. Julgar o presidente apenas pela forma que ele utiliza o português no seu discurso é corroborar a tese de que aquele pequeno órgão dentro de nossa boca possui um capital cultural muito alto. Afinal, quer presunção maior do que falar melhor que o presidente?

Em seu quinto ano de governo, dizem as “más línguas”, o líder da República já deveria ter aprendido uma língua de presidente — norma culta, é claro — ao invés de insistir em “falar errado”. No entanto, definitivamente, depois de Lula, língua nesta terra de novelas nem sempre vai ter a ver com a posição social que uma pessoa ocupa, pois o presidente não quer a língua de seu status. Prefere, antes, manter seu comportamento a partir dos ditames ou costumes assimilados na sua história de vida, em âmbito social, educacional e cultural.

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24.7.07

Made in Brasil [sic]

O advento da modernidade na quinta maior extensão de terra do planeta é um processo contraditório. Se, por um lado, há interesse público em buscar, a qualquer custo, perseguir a ideologia do desenvolvimento, por outro, vez ou outra, surgem ranços de costumes demasiadamente arraigados que caminham contra o famigerado progresso. Ocorre, pois, uma relação estreita entre o tradicional e o não-tradicional na história do Brasil.

Tal hibridismo é observável em diversas esferas da sociedade brasileira. A começar da mal-afamada política, onde se ceva o pretensioso discurso desenvolvimentista — que já é coisa obsoleta falar em desenvolvimento num país de tanta desigualdade social —, mas também é onde se dão as bem-conhecidas falcatruas, levando o eleitorado tupiniquim a adotar como princípio político o “rouba, mas faz”. A religião, que sempre tem sido um nascedouro de inovadores movimentos sociais em prol da igualdade entre as pessoas, é a mesma que troca sua voz profética pelas tentações dos tradicionalismos, populismos, curandeirismos, fanatismos, fundamentalismos, emocionalismos, escapismos, proselitismos, e outros ismos mais. A imprensa também tem sua contribuição neste retrocesso, porque, malgrado conserve o espírito satírico de denunciar as injustiças sociais, não sai do oportunista posto de se achar a salvadora da pátria por ficar “cozinhando” um assunto dias e mais dias, enterrando e ressuscitando-o conforme seus interesses de cor marrom. A universidade, guardiã do pensamento crítico-vanguardista, despreza a possibilidade de abrir suas portas para os menos favorecidos, alegando perda de qualidade, como se o capital cultural das elites tivesse contribuído com alguma coisa melhor para o país senão aumentar o abismo entre ricos e pobres. O povo também não é inocente nem um pouco, porque sonha em transformar o país em primeiro mundo, mas adora tirar proveito dos furos da máquina corrupta, querendo sonegar impostos, descumprir regras e ainda alimenta a utopia de que um dia virá um messias para transformar o Brasil na maior potência mundial.

O fato é que queremos entrar e sair da modernidade arbitrariamente. Este paradoxal movimento é o que faz a nação ser o que é, parafraseando o Roberto da Matta. Incerteza é palavra-chave no inconsciente coletivo nacional, pois entra e sai governo, a sensação é de que fica tudo do mesmo jeito, embora haja algum ensaio de mudança. Afinal, modernidade à brasileira não pode incorporar o “z” não-tradicional no lugar do “s” tradicional, em que pese termos orgulho de dizer “Made in” ao invés de “Feito no”. Portanto, se virem Made in Brasil — com “s” mesmo — por aí, não estranhem, porque é a evidência do nosso hibridismo, tão moderno e tão pré-moderno ao mesmo tempo, é o pastiche e a bricolagem que, juntos, se confluem... Acreditem: ainda há quem fale em pós-modernidade nestas terras!

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12.6.07

Ciência e religião

O cientista não estaria, em suas atividades, ocupando o lugar de Deus? Essa popular pergunta já leva o famoso debate fé e saber para uma relação de confronto entre ciência e religião. Essa maneira antagonista de enxergar tanto um como o outro tem influenciado os debates populares sobre o assunto, em que pese este conflito não ser tão intenso entre muitos estudiosos.

A origem deste embate pode ser interpretada como uma questão cultural, pois o conhecimento científico seria um recurso cultural construído e desenvolvido por alguns grupos sociais com vistas a determinados interesses e objetivos. Isso explicaria a competição entre o clero e os cientistas profissionais na sociedade inglesa do século XIX. Na era vitoriana, novos grupos intelectuais emergentes buscavam substituir os antigos.

Na verdade, todos os conflitos entre religião e cultura estão baseados na identificação da religião como religião no mais estreito sentido, ou seja, religião como um mero pedaço de cultura que reivindica ser mais que cultura e, portanto, irrompe o conflito com outras realidades culturais, tais como a ciência. Embora a religião seja a substância da cultura, é a própria cultura que é a forma da religião. O ambiente é mais favorável a diálogo do que a confronto.

Dialogar significa uma troca de idéias autônomas. Afinal, da mesma maneira que a ciência não pode se intrometer nos interesses da fé, não cabe à religião interferir nos assuntos científicos. É importante que cada uma entenda bem o seu lugar.

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18.5.07

Educação é práxis

Existe uma longa e, diríamos, quase que inesgotável discussão quanto à teoria e à prática em todas as áreas do conhecimento. Uma prática sem uma teoria para pautá-la pode se tornar infrutífera e vazia, e a teoria sem uma prática é simplesmente irrelevante. Uma não deve ser dissociada da outra, elas caminham juntas, completando e se aperfeiçoando. O conceito de práxis se insere nesta discussão.

Karl Marx (1818-1883) chama de práxis a atividade que assume a forma pioneira do trabalho e depois se diversifica. Para ele, cabia ao proletariado, em sua práxis revolucionária, atuar como o portador material de uma transformação social que lhe interessava diretamente, mas também interessava ao conjunto da sociedade. Para isso, era necessário entender que teoria e prática estão totalmente ligadas, pois a práxis não é toda e qualquer atividade prática, mas é a atividade de quem faz escolhas conscientes, necessitando, para isso, de teoria. Apoiado neste conceito, Marx repele sistematicamente tanto a perspectiva idealista, que superestima o papel das idéias e da consciência nas ações históricas dos homens como a perspectiva materialista, que minimiza a importância da intervenção dos sujeitos humanos na constante modificação da realidade objetiva. O ser humano é o sujeito da práxis, pois existe inventando a si mesmo. A história seria o plano onde ele expressa mais significativamente essa sua práxis.

A atividade do educador tem seus limites, mas é atividade humana, é práxis. É intervenção subjetiva na dinâmica pela qual a sociedade existe se transformando, contribuindo para o fazer-se da história. A práxis contribui assim para a inserção da pessoa no movimento da história. A partir dessa concepção de ser humano e de história, como uma dimensão inerente à práxis, que a educação, em Marx, é pensada filosoficamente como uma atividade essencial à dinâmica das sociedades.

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20.4.07

República dos Guaranis


Conta-se que antes dos ibéricos chegarem nestas supostas terras de ninguém do cone sul, existia, do Paraná ao Paraguai, uma civilização muito avançada de índios guaranis. Lá já estava estabelecida a primeira república de todo o continente. Sua religião pregava que um dia alguém, o qual eles deveriam seguir, chegaria às suas terras com uma cruz. Acredita-se que essa orientação tenha vindo do apóstolo Tomé no início da era cristã.

Com a chegada dos padres jesuítas, os povos indígenas ganharam força e prestígio por causa de sua cultura, sobretudo as artes, que não deixavam a desejar em comparação com os artistas medievais.

Embora inicialmente fossem aliados dos espanhóis, havia muito cisma quanto a uma possível independência guarani. Deflagrada uma guerra de Portugal e Espanha contra a jovem república, que insistia no lema Co yvy oguereco yara — “Esta terra tem dono” —, foi destruída toda a história deste bravo povo, considerado um dos mais cultos das Américas.

As ruínas guaranis guardam as marcas de uma violência contra os índios que jamais deveria ser esquecida pelos povos sul-americanos, em cuja descendência ainda se conserva este sangue nativo. Este monumento é reconhecido pela Unesco como uma das quatro rotas turísticas culturais mais importantes do mundo.

Infelizmente, os indígenas se tornaram patrimônio histórico da humanidade apenas quando foram exterminados, um pouco tarde demais. O massacre ibérico à República dos Guaranis deveria ser motivo para brasileiros, argentinos, paraguaios e uruguaios mantermos acesa a memória dos guaranis, os quais sonharam com uma terra onde o povo fosse soberano, ideal próprio de uma república, muito diferente das tirânicas monarquias européias.

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12.4.07

Utopia

Está em extinção a palavra utopia. Afinal, temos descoberto, a cada dia, que é mais fácil ser cínico do que utópico. Há resistências, mas a tendência geral é de um esfriamento daquele comprometimento ideológico com o bem-estar da coletividade. A raça sujeito utópico fica rara entre muitos filósofos de hoje, mais preocupados com a lógica do que com o inexplicável, pois se calam — leia-se: não se interessam — diante daquilo que não sabem (Wittgenstein). A palavra utopia foi transformada em sinônimo de quimera, fábula, ou ficção. Assassinado está o sentido do não lugar que aponta para um ideal que de tão sublime vale a pena tentar construí-lo aqui e agora. A ironia, então, passa a ser regra filosófica e ninguém, por favor, não ouse falar em paraíso.

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23.3.07

Receita de bolo

Reagir a qualquer discurso nem sempre é fácil. Os discursos são feitos de construções ideológicas. São sentidos prontos, feitos com materiais diferentes. Como se fossem bolos. É só colocar os ingredientes que combinam e, no final, descobre-se que tudo dá certo.

Há alguns dias atrás, foi usado pela sua santidade, o papa, um ingrediente, um tipo de farinha chamado “praga”. Ele o combinou com um fermento conhecido como segundo casamento. Resultado: um bolo foi feito, prontinho para ser comido por quem achar palatável. Saboreiem a la vonté: “trata-se de uma verdadeira praga do ambiente social contemporâneo”. Convenhamos, há gosto para tudo.

Vejam. Tem gente que gosta tanto que tenta inventar uma outra receita a partir de uma pronta. Quem diria? Rubem Alves, o herege protestante, concorda com o papa! Ele, no entanto, insere todos os outros tipos de fermentos, a saber, o primeiro, o segundo e o terceiro casamento “pertencem à ordem maldita, caída, praguejada, pós-paraíso”. Opa! Esse bolo é maior, porque tem mais fermento. Não faltarão pessoas para pegarem um pedaço para si, porque, convenhamos novamente, todos têm um gosto.

Vale lembrar, senhoras e senhores, que nossos tímpanos associam a farinha “praga” a maldição, calamidade, flagelo, catástrofe, coisa importuna e por aí vai. Portanto, permitam-me defender o uso desta palavra já que nestes casos acima está associada a casamento. Eu já tentei fazer um bolo sem fermento. É horrível! Bolo só é bolo com fermento. Então, coloquem-no na farinha recomendada pelos entendidos em cozinha. A marca melhor é “praga”. Por favor, não usem outra. Verão que fizeram um bolo do jeito que queriam os inventores da receita. A regra é simples: siga a receita e terá um bolo.

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8.3.07

Dia das Mulheres e do Bush

Acabei de chegar da Avenida Paulista, onde estive com o objetivo de realizar uma pesquisa de campo, ao observar o que as pessoas, sobretudo mulheres, estavam reivindicando na manifestação por ocasião do Dia Internacional da Mulher. Encontrei, no entanto, um ajuntamento de diversos movimentos unidos pelo grito “fora Bush!”. Como sabem, o presidente ianque teve a infeliz idéia de visitar uma das três maiores cidades do mundo em pleno dia de marcha.

Normalmente, em dias como esse, as mulheres brasileiras, seguindo a tradição dos históricos movimentos feministas ocorridos em todo o mundo nos últimos anos, vão às ruas dispostas a lutarem por melhores condições de vida. E precisamos ouvi-las! Pouca gente sabe, por exemplo, que as trabalhadoras são responsáveis por cerca de 70% da produção mundial, mas que recebem apenas 30% de todo capital. Esse dia nasceu não para ser o dia de dizer “parabéns” às pessoas do sexo feminino, mas para se unir à luta destas que sempre estiveram em desvantagem na história da humanidade.

Obviamente, a oportuna idéia de se unir com outros movimentos sociais em prol de um único grito não passou isenta das intenções de manifestantes radicais, os quais só ficarão satisfeitos quando se instaurar um bolchevismo brasileiro, com a implantação de uma ditadura do proletariado. Aliás, por trás de tudo isso, há sempre quem queira tirar proveito da situação. Sabemos que a avareza é um pecado inerentemente humano que impede qualquer utopia de se tornar realidade. Não foi à toa que os partidos políticos que sobrevivem de motins e greves estavam lá em peso, se unindo às mulheres aparentemente motivados por encontrarem mais um palanque expressivo.

O presidente dos EUA conseguiu o que queria: ser odiado ainda mais na América Latina. Aqui o povo tem o sangue quente e não suporta lembrar de que os governos daquele país, em sua maioria, sempre apoiou regimes ditadores que mancharam de sangue a história do continente. Além do que, convenhamos, as últimas ações desse cidadão condenam a ele mais do que ao Capeta — já tem gente o chamando de “Belzebush”. Então, aparecer na nação tupiniquim em um dia 8 de março é pedir para ser execrado.

Mesmo assim, todas as honras foram dadas ao Todo-Poderoso. As ruas foram fechadas e a hora do rush virou uma verdadeira hora do Bush. Os protetores da ordem não deixaram a desejar. A uma pequena ameaça de passar dos limites por parte dos que estavam ali motivados apenas pela bagunça, já se pôde ouvir tiros de borracha. Foi uma correria só. Tivemos de invadir um estabelecimento para não ser pisoteados. Êta polícia violenta essa nossa! Estava ávida por uma oportunidade de mostrar serviço diante do Big Boss.

A contradição corre solta nessas manifestações atuais. Vi alguns pobres, mas a maioria dos que estavam na avenida parecia ser de jovens de classe média movidos pelo oba-oba, ou seja, pelo mero divertimento de estar nas ruas com uma camisa vermelha de algum partido político, ou de uma faculdade de direito — USP, Mackenzie. Pasmem: os filhinhos-de-papai, que estudam em unviersidades de tradição centro-direitista, agora acham que está na moda se vestir de revolucionários. Pelo visto, o legado mais importante de Che Guevarra para o Brasil foi o seu rosto, que virou marca de roupa. Os verdadeiros pobres, que eram os mendigos deitados no chão da praça Osvaldo Cruz, não sabiam sequer do que estava acontecendo. Pedi, propositadamente, a opinião de uma senhora cujo semblante demonstrava que estava faminta, mas ela, bêbada e com um bebê no colo, se recusou, alegando não saber de nada.

Ora, vejam só! Quem roubou a cena do Dia das Mulheres foi o anticristo americano, quem não deixou o grito das camaradas ser o principal e quem parou São Paulo só para ele mandar o Lula impedir que os árabes brasileiros parem de mandar dinheiro para os terroristas. Agora vou lá ver o que os telejornais têm a dizer... Certamente, vão abrir alas para Ele passar.

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