1.3.09

Sensação de verdade

O fato de a verdade ser relativa não diminui seu valor, porque nós temos a ideia de verdade. E isso é importante, já que essa “ideia” é uma sensação. Eis o segredo da vida! Viver é sentir! O sentido da verdade corresponde ao que eu sinto. Por isso, não existe verdade, existe uma sensação de verdade. O mesmo se pode arriscar dizer: não existe vida, existe uma sensação de vida. Sem querer dar crédito a Descartes: “Sinto, logo existo”. Dói aos tímpanos da tradição racionalista ouvir coisa assim.

Afinal, a tradição racionalista prioriza a razão (“logos”) em detrimento da paixão (“pathos”). Não é por acaso que, volta e meia, vem à baila o velho hábito de manter o controle através da razão. Já se esqueceu, infelizmente, que o próprio movimento filosófico que enfatizava a explicação racional da vida recebeu apelidos metafóricos bastante distantes de uma racionalidade insensível, como “Luzes” e “Ilustração”. Ambas expressões guardam em seu sentido, momentos memoráveis de quando a humanidade vivia a aurora de um novo tempo, onde o passado foi reconhecido como “Trevas” diante do lúmen de novas experiências, que embora nascidas no crepúsculo dos séculos escuros, davam a sensação da iminência de uma nova era. A luz era o sol que dispersava a neblina da ignorância. Pura sensação de verdade! Rejeitaram o “a priori” do establishment em prol do sentimento de viver diferentemente. Apostaram na sensação. Afinal, a razão foi, antes de tudo, uma alienação, uma ilustração, uma luz, um sentimento. Era, pois, um “a posteriori”, não um “a priori”. Já nasceu com uma intenção: desejar um requiescat in pace para o velho mundo, o velho sentimento. A velha sensação de verdade.

Ontem, hoje e sempre. Tudo foi, tudo é, tudo será sensação.


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10.4.08

Alto preço?

Os desumanos absolutistas que sempre existiram querem nos salvar de uma queda inevitável, que aconteceu lá no tempo dos demiurgos. Adão e Eva trocaram o tédio da certeza do divino jardim de delícias pelo desespero da incerteza de cair no abismo humano chamado história. (Qualquer um de nós faria o mesmo!) Desde então, não faltaram déspotas, tiranos, soberanos, ditadores e imperadores cuja mão de ferro se sustenta pelo alto preço da ilusão de dar salvação a uma humanidade eternamente perdida.

A própria condição humana, no entanto, é de sofrer as conseqüências inerentes àquela saída do paraíso — que todos nós fazemos quando nascemos, deixando o ventre paradisíaco da nossa mãe —, porque preferimos a contingência de um mundo feito de gente de carne e osso, onde nos tornamos seres históricos, ao status de divindade do Éden, onde estaríamos condenados a ficar andando nus um ao lado do outro sem perceber que estávamos.

Iludir-nos com quem não somos, portanto, custa caro, mas entender quem somos é de Graça.

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20.3.08

Serve até como epígrafe

Na Idade Média as pessoas eram religiosas secularmente falando. Hoje, são seculares religiosamente falando.

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29.10.07

Kairós e chronos

O movimento nascente de cristãos vivia em dois tempos. Enxergava um tempo favorável, o kairós, o tempo de refrigério, aqui e agora, no tempo de restauração, no chronos. Queria fazer alguma coisa para mudar sua situação para melhor, para algo utópico, desencadeando práticas concretas e transformadoras na sociedade. O absurdo de dizer que o tempo oportuno kairótico, isto é, o tempo da plenitude de sentido, poderia ser vivido no tempo presente, no tempo cronológico, repleto de contradições humanas, fez com que os cristãos agissem no hoje como se o amanhã da humanidade deles dependesse.

Aqueles homens e aquelas mulheres acreditavam que estavam antecipando o Reino de Deus. Promoviam tempos de refrigério (ainda não) dentro dos tempos de restauração (). Sua mensagem contemplava as promessas para o futuro e para o presente, vivendo a dialética do Reino de Deus. Eles e elas levavam, pois, esperança na desesperança, antecipando a chegada de dias melhores, ainda que seus dias fossem dos piores.

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22.10.07

A Reforma Radical

No fim deste mês, dia 31, comemoramos 490 anos da Reforma Protestante. Vamos falar um pouco de um grupo reformador cujas idéias foram extremamente radicais.

Dispostos a promover uma reforma dentro da própria Reforma, os reformadores radicais exigiam que se levasse às últimas conseqüências os princípios que haviam dado origem à mudança no cenário religioso do século XVI. Buscando restaurar o cristianismo à sua pureza apostólica — quando não procuravam antecipar a comunidade escatológica —, estes reformadores não possuíam necessariamente uma uniformidade doutrinária, pois além de discordar das opiniões do protestantismo clássico (leia-se principalmente Lutero), discordavam intensamente entre si.

As influências recebidas pelos reformadores radicais foram as idéias humanistas — Erasmo sobretudo —, o misticismo alemão, o milenarismo, o caráter anticlerical bem como o infuso espiritualismo dos inúmeros movimentos religiosos populares da Idade Média, e o acesso às Escrituras no idioma vernáculo. Todos estes elementos formam o pano de fundo ideológico do mundo dentro do qual a reforma protestante radical surgiu. Lutero também foi decisivo para fomentar o movimento, já que abriu caminho para uma compreensão criativa da relação entre Espírito, Igreja e indivíduo. Seu pensamento dava expressão ao caráter profético, carismático, pneumático, místico e pessoal da prática cristã.

No entanto, muitos reformadores radicais se mostraram insatisfeitos com a recusa de Lutero em dissociar experiência interna de fé — ação do Espírito — da mediação externa e visível pela qual ela alcança o fiel — pregação e sacramentos. Temiam que o papa protestante fosse a letra. Para eles, a fé não poderia se aprisionar ao passado, mas se transformar pelo sopro renovador do Espírito. Afinal, o Espírito Santo era interpretado como superior a qualquer registro histórico de suas próprias ações. A Bíblia ou a tradição chegaram a ser consideradas por eles, numa perspectiva extrema, dispensáveis se não comprovassem a experiência religiosa.

Embora esse radicalismo não possa ser aplicado à maioria dos reformadores radicais, os anabatistas, talvez o grupo mais expressivo dos protestantes radicais, se caracterizam por: liberdade em matéria de fé, pluralismo no plano da unidade eclesial ampla, compreensão dos colóquios de reconciliação como uma das notas eclesiais essenciais, rejeição do batismo infantil e representação do martírio como integração — promovida pelo Espírito — dos discípulos no caminho da cruz de Cristo. As principais características do movimento ainda incluem aspectos que não o divergem tanto do protestantismo clássico, mas que o corrigem, como a separação entre Igreja e Estado, os repetidos apelos em prol da liberdade religiosa e da tolerância, e os veementes protestos contra a identificação acrítica da fé cristã com o conformismo sócio-religioso.

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20.4.07

República dos Guaranis


Conta-se que antes dos ibéricos chegarem nestas supostas terras de ninguém do cone sul, existia, do Paraná ao Paraguai, uma civilização muito avançada de índios guaranis. Lá já estava estabelecida a primeira república de todo o continente. Sua religião pregava que um dia alguém, o qual eles deveriam seguir, chegaria às suas terras com uma cruz. Acredita-se que essa orientação tenha vindo do apóstolo Tomé no início da era cristã.

Com a chegada dos padres jesuítas, os povos indígenas ganharam força e prestígio por causa de sua cultura, sobretudo as artes, que não deixavam a desejar em comparação com os artistas medievais.

Embora inicialmente fossem aliados dos espanhóis, havia muito cisma quanto a uma possível independência guarani. Deflagrada uma guerra de Portugal e Espanha contra a jovem república, que insistia no lema Co yvy oguereco yara — “Esta terra tem dono” —, foi destruída toda a história deste bravo povo, considerado um dos mais cultos das Américas.

As ruínas guaranis guardam as marcas de uma violência contra os índios que jamais deveria ser esquecida pelos povos sul-americanos, em cuja descendência ainda se conserva este sangue nativo. Este monumento é reconhecido pela Unesco como uma das quatro rotas turísticas culturais mais importantes do mundo.

Infelizmente, os indígenas se tornaram patrimônio histórico da humanidade apenas quando foram exterminados, um pouco tarde demais. O massacre ibérico à República dos Guaranis deveria ser motivo para brasileiros, argentinos, paraguaios e uruguaios mantermos acesa a memória dos guaranis, os quais sonharam com uma terra onde o povo fosse soberano, ideal próprio de uma república, muito diferente das tirânicas monarquias européias.

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4.3.07

Agostinho e o sexo

O pensador africano Aurélio Agostinho (354-430) é o único escritor da igreja primitiva que revelou sua vida sexual através de sua obra autobiográfica denominada Confissões. Reconhecido como um livro clássico cristão, este escrito nos permite vislumbrar suas experiências com o sexo, vividas quando rapaz, e suas concepções da relação entre a sexualidade e a sociedade, formuladas já na sua meia-idade.

Disposto a abandonar a vida sexual ativa, Agostinho escreveu Confissões com o intuito de transmitir um sentimento contrastante entre suas necessidades sexuais e o seu anseio por relações límpidas e não problemáticas. Agostinho acreditava que sexo e sociedade eram opostos. Por isso, somente uma igreja verdadeira, composta de eleitos continentes, tornaria possível uma sociedade verdadeira, resultando numa harmonia de almas libertas da matéria. Nem mesmo a relação sexual praticada com o fim de gerar filhos era considerada como boa, visto que “colaborava com a impetuosa expansão do Reino das Trevas, em detrimento da pureza espiritual associada ao Reino da Luz”. Para o bispo de Hipona, os impulsos sexuais constituíam uma marca da fragilidade herdada pela humanidade no ato inicial de desobediência de Adão, pois estes escapavam ao controle da vontade humana.

Embora respondesse ao seu tempo e à sua própria realidade, as formulações de Agostinho notadamente influenciaram o legado sobre sexualidade deixado pela era medieval. O desejo sexual, reconhecido por ele como um incômodo problema, i.e. uma força destrutiva, ainda continua nos dias atuais sendo visto como nocivo a uma vida santa e pura.

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