12.5.08

Da ambigüidade humana

Quanto mais próximo do que não se é, mais perto do que se é. Macbeth, um notável herói trágico de William Shakespeare, encarna, a dúvida quanto ao ser ou não ser. No início da peça, apresenta-se como um prestigiado general do exército do rei; no fim, um homem isolado, sem espaço na comunidade social. Tudo o que ele vive, no entanto, parece resultar de suas próprias ações. A sua glória e a sua derrota florescem a partir de escolhas cujas conseqüências posteriores lhe pesam de tal maneira que não consegue suportar. Ele acaba morto, pensando que tudo podia controlar, mas não pôde. Não há controle sobre si mesmo, sobretudo quando se luta contra aquilo que traz sentido para nossa própria vida, contra aquilo que diz respeito à nossa própria situação humana, que é ambígua. Afinal, toda tragédia nos mostra que quase nunca sabemos se somos ou se não somos.

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3.5.08

Via dolorosa de uma mãe

45 graus. O nome de Deus é Redentor. Da janela, porém, só se vê braços abertos. Lá não dá para chegar sequer para fazer uma prece. É só para turista tirar fotos. Subir mais um morro? Não. Aqui embaixo já tem morro demais, se bem que muito diferente do Corcovado, onde a gente sobe de trenzinho e escada rolante.

Lá está ela, como todos os dias, chegando do trabalho pesado de levantar às 5 da manhã e passar o dia inteiro fora vendendo balas e doces na Central do Brasil. Dizem que toda mãe se parece com a virgem Maria, mas esta é o próprio Cristo crucificado. Duvidam? Peçam para apalpar-lhe as mãos e os pés. Verão as marcas dos pregos, verdadeiras crostas de calos. Só não falem nada de Deus, porque ele parece ter abandonado essa gente cuja voz não cansa de clamar “Eli, Eli, lama sabactani”.

De pele negra, esta mãe conhece bem o seu caminho até o Calvário. Ao chegar à favela, é preciso verificar se os traficantes não estão trocando tiros com a polícia, porque na semana passada, ela visitara uma amiga em coma, vítima de uma bala perdida. As chibatadas dos soldados romanos nem chegavam perto de um tiro de fuzil. Esse é para matar. Se pegar, já era. Fim de semana o caveirão costuma subir o morro com vários fuzis. É um carro-forte blindado da polícia que vai atirando para todos os lados. Inteligência burra. Vez ou outra se vê crianças sendo mortas por esta barbárie. Aquele coração materno sabe bem o que é perder um filho. Toda vez chora quando olha para a foto de Preto, seu primogênito que sonhava em ser advogado. Era sexta-feira quando foram buscá-lo, acusando-o de ter aberto o bico. É! A polícia descobriu uma boca de fumo que rendia muito dinheiro ao tráfico de drogas. Alguém fez questão de passar o mapa da localidade. Foram pedir desculpas para a mãe um dia desses, pois descobriram que apagaram o cara errado. “Pô tia, o Preto era igual ao X9 que nos ferrou!”, diziam os dois rapazes de cabelos pintados com água oxigenada. Ela, sem força alguma, quis gritar, mas não pôde. Não fora capaz nem de enterrar o filho, já que ele morrera queimado em meio a pneus.

À noite, na hora de dormir, ela lembra de dar um beijo em Gabriela, um anjo que veio do céu para consolá-la. Depois que seu marido morreu, também assassinado, só que dessa vez por causa de uma dívida, ela ficaria sozinha não fosse a barriga que estava crescendo já no início do segundo mês de gravidez. O aborto seria uma solução viável para uma jovem de 30 anos, mas ela não tinha dinheiro para isso. Nesse dia, ela havia ido a uma igreja a convite da vizinha que vivia dizendo: “você tá precisando de Deus pra te proteger”. Na favela não tem padre, como no Nordeste, sua terra natal. Restou-lhe procurar “os crente”. Estes têm aos mil. Vivem querendo expulsar demônio do povo. Não têm medo dos traficantes, que de vez em quando até aparecem por lá para pedir oração ao pastor. Nada muda, mas ela se sentiu aliviada para enfrentar a dura realidade de uma vida cada vez mais difícil.

O dinheiro está em falta. 100 reais é o que tem da semana toda. Já contou e recontou as notas de um e as moedinhas, que guarda no cofrinho. Queria tanto colocar Gabriela na creche, mas vai ter de continuar deixando-a com a vizinha que cobra 20 reais por mês. As lágrimas caem em cima do mingau de fubá, única refeição que pode fazer com o que tem. Seu choro não apaga as marcas do seu sofrimento. Ela sabe que amanhã tudo começa novamente. Ser mãe, no seu caso, é subir o Gólgota com a cruz, e descer com o madeiro nas costas. A via dolorosa de lembrar sua condição materna será a mesma, ida e volta, todos os dias, não apenas no segundo domingo de maio.

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25.4.08

Não responda!

É possível viver os ideais em que acreditamos? Pelo menos alguém respondeu a essa questão afirmativamente. Assim o fez, porque era o próprio ideal encarnado, habitando entre nós. (No princípio era o ideal, e Deus sempre foi ideal — para lembrar que o logos nunca foi desse mundo; Platão que o diga!)

Lendo Ernest Hemingway (1899-1961) aprendi que um ideal pode se transformar em desilusão. O conto “In Another Country” expressa o fim do idealismo de jovens norte-americanos que se apresentaram como voluntários para servir numa guerra que não era sua. No front, ficaria uma das mais importantes contribuições ianques para a democracia, que inspirou aqueles rapazes a lutar: é preciso unir forças em prol da liberdade de todos os povos.

Na prática isso nunca aconteceu. Ao invés de um mundo livre, criou-se um mundo cada vez mais preso à intolerância na relação com o outro, e escravo de seus próprios artifícios beligerantes, que matam, segregam e produzem o mal muito mais do que dão vida, promovem inclusão e fazem o bem.

Qualquer pensador entusiasta dos ideais iluministas dificilmente imaginaria um mundo tão avançado na tecnologia e tão retrógrado nos relacionamentos humanos. O cúmulo dessa situação pôde ser visto no encontro entre os dois homens mais poderosos do planeta política e religiosamente falando. O presidente George W. Bush disse que “toda vida humana é sagrada”, para se juntar ao Vaticano na luta contra a legalização do aborto. No entanto, parece que a vida das mães, que morrem no lugar do bebê, bem como as vidas inocentes ceifadas nas guerras contra o so-called “terrorismo”, passam longe da sacralidade do mandatário. A Sua Santidade Bento XVI engrossou o coro conservador cristão, que faz cruzada contra o avanço da religião muçulmana no mundo, enquanto quis deixar uma boa impressão ao declarar-se “ansioso” para encontrar-se com “todas as comunidades cristãs e representantes de muitas tradições religiosas” dos EUA. Bento e Bush, católicos e protestantes, política e religião: tão parecidos!

Talvez aquilo que a tradição protestante da qual faço parte melhor contribuiu para a humanidade foi a insistência no princípio de separação entre Igreja e Estado. A partir deste princípio, as democracias modernas buscam construir o ideal de um governo laico. Isso quase nunca foi vivido, nem pela política, tampouco pela religião. Aqueles batistas, anglicanos radicais, inspiram pouco, por exemplo, os batistas do Brasil, que tendem a preferir o fundamentalismo conservador, produzido principalmente no ambiente de uma classe média sulista ressentida até hoje por perder a Guerra de Secessão (1861-1865) para o norte progressista.

Nesse reduto de pessoas, onde até um dia desses queimavam outras pessoas de cor de pele diferente da sua, surgiu um homem que se sacrificou para encarnar o ideal de igualdade, liberdade e fraternidade entre todas as pessoas. Martin Luther King, Jr. (1929-1968), um pastor batista que viveu por uma causa para morrer por ela. Não fez de sua religião uma luta política, mas da luta política sua religião.

“Eu tenho um sonho” (I have a dream), é sua mais emblemática frase. Pessoas que sonham sofrem por viver em prol daquilo que lhes incomoda em sono e acordadas. Não respondem perguntas irrespondíveis, porque são transformadas pela profundidade da própria questão. Luther King não respondeu, mas se incomodou com a pergunta, o que resta a todos nós seres humanos fazer. Lá no Calvário, no entanto, teve um que foi capaz de responder, assumindo assim a própria condição de ideal encarnado, ou melhor, respondido. “E vimos sua glória!”

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22.4.08

O inferno é o outro, a começar de mim

A gente tem o costume de achar que o outro está sempre fora, mas se esquece que dentro de nós moram vários “outros”. Cada outro dialoga dialeticamente com o outro na formação da nossa personalidade, que tende a ser mais plural que singular. Portanto, esse tema da alteridade começa dentro nós. Para amarmos a nós mesmos, precisamos amar o outro que mora logo aqui, em mim mesmo. O individualismo e o hedonismo que caracterizam nossa sociedade são frutos justamente desse desconhecimento que tendemos a nutrir a respeito de nós mesmos. Afinal, fugir de si é uma auto-armadilha cada vez mais atraente a um público inseguro do que de fato são, onde as grandes narrativas são insuficientes para responder àquela inquietante pergunta “Quem sou eu?”

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15.4.08

Gênesis 1,1s

Quando resolveram brincar de massinha, após enjoarem de ficar olhando um para a cara do outro, no auge dos tempos de descanso que qualquer ser vivo invejaria viver, fizeram o céu e a terra, ou, como deve ter dito o mais pessimista, inventaram sarna para se coçar. Nada antes, nada depois. Apenas um forte vento provocado por suas constantes nadadas nas águas. Esta era a única diversão da época. Cansaram de concorrer entre si quem chegaria mais rápido do oriente ao ocidente. Até que descobriram a hidroginástica como terapia para suas recorrentes câimbras. Era só parar, como foi observado, que o próprio movimento dos oceanos lhes curava as feridas. Gostaram tanto da atividade que dali não quiseram mais sair. Perderam, então, sua capacidade criativa, e viram um enorme abismo surgir logo ali. As trevas ficavam cada vez mais assustadoras. Ninguém suportava outro mergulho, que soava sarcástico e até leviano. Não havia outra saída senão abrir a boca até então silenciosa para pronunciar as palavras criadoras. Essa idéia de falar não agradava muito àquele persistente sentimento conservador de manter as coisas do mesmo jeito, mas no fundo o desejo de arriscar nunca foi deixado de lado, sobretudo por incitar seus instintos mais juvenis, dos quais todos sentiam saudade nesse momento de crise. Venceu a juventude, venceu a inovação, venceu a criatividade — talvez, é verdade, lá na frente alguém vá dizer: “Não falei; era melhor não ter feito tudo isso”. Todo mundo tinha consciência de que poderiam se arrepender de sua decisão, sendo julgados por si mesmos, porém nunca um tiro no pé foi tão necessário.

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10.4.08

Alto preço?

Os desumanos absolutistas que sempre existiram querem nos salvar de uma queda inevitável, que aconteceu lá no tempo dos demiurgos. Adão e Eva trocaram o tédio da certeza do divino jardim de delícias pelo desespero da incerteza de cair no abismo humano chamado história. (Qualquer um de nós faria o mesmo!) Desde então, não faltaram déspotas, tiranos, soberanos, ditadores e imperadores cuja mão de ferro se sustenta pelo alto preço da ilusão de dar salvação a uma humanidade eternamente perdida.

A própria condição humana, no entanto, é de sofrer as conseqüências inerentes àquela saída do paraíso — que todos nós fazemos quando nascemos, deixando o ventre paradisíaco da nossa mãe —, porque preferimos a contingência de um mundo feito de gente de carne e osso, onde nos tornamos seres históricos, ao status de divindade do Éden, onde estaríamos condenados a ficar andando nus um ao lado do outro sem perceber que estávamos.

Iludir-nos com quem não somos, portanto, custa caro, mas entender quem somos é de Graça.

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5.4.08

Nossa necessidade hierográfica

Quanto mais longe ficamos dos livros sagrados menos metáforas teremos para contar a quem amamos. Bendita seja a literatura que dá sentido para as nossas vidas!

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