1.3.09

Sensação de verdade

O fato de a verdade ser relativa não diminui seu valor, porque nós temos a ideia de verdade. E isso é importante, já que essa “ideia” é uma sensação. Eis o segredo da vida! Viver é sentir! O sentido da verdade corresponde ao que eu sinto. Por isso, não existe verdade, existe uma sensação de verdade. O mesmo se pode arriscar dizer: não existe vida, existe uma sensação de vida. Sem querer dar crédito a Descartes: “Sinto, logo existo”. Dói aos tímpanos da tradição racionalista ouvir coisa assim.

Afinal, a tradição racionalista prioriza a razão (“logos”) em detrimento da paixão (“pathos”). Não é por acaso que, volta e meia, vem à baila o velho hábito de manter o controle através da razão. Já se esqueceu, infelizmente, que o próprio movimento filosófico que enfatizava a explicação racional da vida recebeu apelidos metafóricos bastante distantes de uma racionalidade insensível, como “Luzes” e “Ilustração”. Ambas expressões guardam em seu sentido, momentos memoráveis de quando a humanidade vivia a aurora de um novo tempo, onde o passado foi reconhecido como “Trevas” diante do lúmen de novas experiências, que embora nascidas no crepúsculo dos séculos escuros, davam a sensação da iminência de uma nova era. A luz era o sol que dispersava a neblina da ignorância. Pura sensação de verdade! Rejeitaram o “a priori” do establishment em prol do sentimento de viver diferentemente. Apostaram na sensação. Afinal, a razão foi, antes de tudo, uma alienação, uma ilustração, uma luz, um sentimento. Era, pois, um “a posteriori”, não um “a priori”. Já nasceu com uma intenção: desejar um requiescat in pace para o velho mundo, o velho sentimento. A velha sensação de verdade.

Ontem, hoje e sempre. Tudo foi, tudo é, tudo será sensação.


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12.2.09

José, para onde?

Dia desses, minha cidade natal foi notícia de capa da Folha (1º/2/2009). Fiquei triste. Afinal, não era dia 31/10, aniversário de seu mais ilustre filho, Carlos Drummond de Andrade. De coisa boa não se tratava mesmo, pois reportava-se que até o Carnaval fora cancelado este ano na minha terra tão querida. As más novas informavam acerca da ameaça de desemprego por causa da tal crise econômica.

Sinceramente, espero que Itabira — que significa "pedra que brilha" — não passe de "apenas uma fotografia na parede" para a Vale na hora de tomar decisões que podem afetar 70% da economia desse município. Vale lembrar que é de lá que essa imponente companhia extrai o minério que já encheu seus cofres nos tempos de bonança, transformando em buraco o maior patrimônio natural da cidade que é o Pico do Cauê, de onde, como diz a lenda, se podia ver Belo Horizonte, que está a mais de 100km de distância. Nessas horas, fico me perguntando, como todo bom itabirano, "E agora, José?". Do lado de lá, do lado dos poderosos, de quem vale, alguém deve matutar: "José, para onde?". (Por favor, não digam o óbvio — "Rua!")

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31.1.09

Viver entre fronteiras

A palavra latina “fronteiro”, de onde provém “fronteira”, origina-se do termo “fronte” que, a rigor, significa “testa”, “face”, “fachada”, “frente”, “dianteira”. É, antes de tudo, um lugar de frente, diante do qual se depara.

Esta é exatamente a realidade da vida no dia-a-dia: defrontar, confrontar, enfrentar e afrontar os limites e as dificuldades que surgem defronte de si. Viver é estar nas fronteiras, em lugares cheios de tensão e movimento, que não são estáticos. Por questão de sobrevivência, ali se pratica uma constante travessia e transgressão, de modo que aparecem outros lugares não muito limitados, pois as fronteiras são sempre desafiadas pelo exercício de liberdade.

Benditos sejam os lugares do meio!

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19.1.09

O nome dele é Martin Luther King Jr.

No dia de hoje, quero trazer à memória o nome de um homem cuja vida tomo como referencial, Martin Luther King Jr. Hoje, comemora-se em sua terra natal o feriado que o homenageia dando ao dia o seu próprio nome, privilégio reservado a apenas mais duas outras personalidades, George Washington e Cristóvão Colombo.

Nascido em um ambiente hostil a sua pessoa por causa da cor de sua pele, King não deixou de encontrar esperança entre a aurora e o crepúsculo. Fez a sua parte. Estudou Sociologia e Teologia, qualificando-se como um dos melhores quadros para mobilizar outros homens e mulheres que se identificavam com sua resistência às forças de opressão que castravam a liberdade de todos os cidadãos.

Na condição de pastor protestante, King não se confinou à clausura das quatro paredes de sua igreja, sentindo-se tocado para transformar a realidade para além das fronteiras religiosas. Não fez de sua luta uma religião, mas de sua religião uma luta.

De modo que eu sinto uma profunda vergonha de ter sido pastor dentro da mesma tradição de fé desse homem e estar longe de me engajar em uma causa de tal envergadura. Ainda há tempo. Completarei um quarto de século em 2009. Se errante fui, errante continuarei. Mas não quero errar sem causa.

Como devoto de São King, amanhã, na ocasião da posse de Barack Obama como presidente dos EUA, acenderei uma vela para a causa pela qual ele lutou, certo de que nem sempre se pode colher os frutos daquilo que se plantou. Como seria bom se aquele que fora o mais jovem ganhador do Prêmio Nobel da Paz estivesse aqui para celebrar essa vitória de sua causa! Mas creio que ele estará, porque ninguém foi feito para morrer, e sim para ressuscitar.

Foi assim com Jesus. Será assim com King. Eu acredito em Jesus. Eu acredito em King. Suas causas estão vivas e jamais serão mortas. Apesar da cruz, apesar do tiro. Eis que na morte surge a vida. Ressurreição! Lutarei por Jesus, lutarei por King. Nem o madeiro nem a bala poderão silenciar a luta de quem “tem um sonho” por um mundo de justiça. I have a dream today — o texto sagrado do meu dia.

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7.1.09

“Isto é o meu corpo” (Jesus de Nazaré)

Quando fui buscar o jornal na minha porta hoje, estava cantando os seguintes versos: “Agora o que mais importa / É renascer na esperança / É renascer, renascer na esperança” (Jaci Maraschin). Tamanha surpresa foi, logo depois, defrontar com a imagem de um corpo de uma menina achada em meio aos escombros da atual guerra entre Israel e Hamas. (Folha de S. Paulo, 07/01/09)

Lembrei-me de quando celebrei o primeiro memorial da Ceia do Senhor (Eucaristia), na minha curtíssima experiência pastoral protestante. Pouco tempo atrás. Era na semana em que a nossa faixa de Gaza carioca pegava fogo. Ali, durante o culto, preguei um sermão sobre memória e esperança, que dizia o seguinte no final:


Quero terminar esta palavra fazendo um apelo à sua memória. Mas não quero lembrar você de nada não. Meu desejo é que você apenas use a sua visão para não se esquecer de algo que vem nos afetando a cada dia, quando acompanhamos os noticiários. Há uma foto que saiu na capa do jornal Folha de S. Paulo, na última quinta-feira (27/06/07). Lá estão, corpo e sangue, representando o resultado de nossa amnésia. Esse corpo e esse sangue poderiam ter outro destino, mas estão ali, clamando ao mundo todo por justiça. Nem sei de quem se trata ali, debaixo daquele pano, mas sei que é alguém fruto da violência que tanto mancha a nossa Cidade Maravilhosa. Esta pessoa certamente nasceu num lugar miserável, onde não havia outra opção a não ser entrar para o crime. Vamos nos calar diante disso?

O corpo e o sangue de Jesus são símbolos de esperança. Mas são também símbolos da memória. Precisamos de memória! Precisamos de memória social! Precisamos lembrar que os hebreus sofreram injustiça, que Jesus sofreu injustiça, mas que muita gente hoje ainda continua sofrendo injustiça aos nossos olhos e nós não fazemos nada além de virar a página do jornal e esperar mais um dia chegar.

A mim e a você Jesus disse “fazei isto em memória de mim” (v. 19), porque ele quer ser lembrado. Ele será lembrado cada vez que lembrarmos dos injustiçados da cidade, do estado, do país e do mundo. Cabe a todos nós vivermos esta esperança cada vez que comermos deste pão e bebermos deste cálice. Lá, no pão, estavam as marcas das injustiças. Lá, no cálice, estavam as marcas do derramamento de sangue, da violência. Dois problemas contra os quais lutávamos ontem, lutamos hoje e lutaremos sempre, com memória e esperança. Que para tanto Deus nos ajude. Amém.



As injustiças continuam. E Jesus ainda quer ser lembrado. Porque esses corpos aí, cariocas ou palestinos, são os corpos daquele que acabou injustiçado na cruz. O que mais importa agora, portanto, é que a esperança renasça em nossa memória.

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29.11.08

Saramago ontem no Teatro Folha

Eram 13h quando consegui sair da Universidade Metodista correndo em direção à estação de metrô Parque Dom Pedro, em São Paulo. Após dois dias de aulas intensas sobre Religião, Teologia e Cultura, tudo o que eu mais queria era chegar antes das 15h ao Shopping Higienópolis, onde ouviria José Saramago. A minha pesada mochila cheia de roupas sujas, continha além dos livros de Zygmunt Bauman, Robert Schreiter e Kathryn Tanner, Ensaio sobre a cegueira e O Evangelho segundo Jesus Cristo. Transcrevo abaixo alguns dos trechos principais que captei da fala saramagoana, que combina o melhor da perspicácia, da inteligência e, claro, do sarcasmo.

“O melhor quando não se tem nada a dizer é calar.”

“A história da humanidade é um desastre contínuo.”

“O instinto serve melhor aos animais do que a razão serve ao homem.”

Ensaio sobre a cegueira foi escrito para dizer que estamos todos cegos... Eu não queria ver a cara dos meus personagens [quando procurado por Fernando Meirelles para produzir um filme a partir deste romance].”

“Sou aquilo que se poderia chamar de um comunista hormonal... Ser comunista é um estado de espírito... O Marx nunca teve tanta razão quanto agora.”

“Se o português quer ganhar influência no mundo, tem de adotar uma grafia única.”

“Entre Portugal e Brasil só há duas coisas: interesses comuns e trabalhos comuns.”

“O leitor importa depois, não enquanto se escreve.”

“Não quero ofender ninguém... Deus simplesmente não existe.”

“A Bíblia foi escrita ao longo de 2000 anos e não é um livro que se possa deixar nas mãos de um inocente. Só tem maus conselhos, assassinatos, incestos.”

“Alguém aqui sabe dizer o que é o narrador? O narrador é aquele que narra e aquele que narra é o autor.”

“Não me convém saber certas coisas.”

“O problema é que eu não sei de nada, mas tenho essa sensação contínua de que deveria saber de tudo.”

Eis o link para quem quiser assistir ao vídeo da sabatina.

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28.5.08

Presentes de 24 anos

  • "A arte da Fuga", composta por Johann Sebastian Bach (Gravação de Wolfgang Rübsam);
  • Uma camisa com a seguinte frase: "Dress your mind" ("Vista a sua mente");
  • Poesias, de Fernando Pessoa;
  • A autobiografia de Barack Obama, traduzida no Brasil como A origem dos meus sonhos (no original é "Sonhos do meu pai" — Dream from my father);
  • E muitas demonstrações de carinho e mimo com as quais fui agraciado através de mensagens, telefonadas e escritas, do coração de alguém para este lugarzinho aqui do lado esquerdo de mim. Muito obrigado!

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27.3.08

"D"

A, B, C... Eis o nome do novo demônio que paira sobre o ar da Cidade Maravilhosa: não o digam, por favor; melhor deixar só a letra inicial, mesmo assim batendo na madeira. “Deus me livre”, deve está dizendo qualquer mineiro do interior que vê na TV o estrago que um invertebrado dos quinto anda provocando na terra do Cristo. (Oh, Redentor, oxalá tuas mãos se movessem aí no Corcovado para nos ajudar a esmagar esses emissários do mal!) Das Gerais, no entanto, ninguém vê que os pobres mortais daqui de baixo deram lugar ao diabo. A começar das potestades de cima que, através dos poderes (in)competentes, demoraram para agir. (Até agora o dondoco do senhor prefeito, da facção Democratas, acha que não estamos numa epidemia!) E assim as hostes da maldade iludem o povo. (Ô coitado!) Vós, donzels e donzelas, outrora não tampastes as vossas caixas d’água e piscinas, ora apontais o dedo. Salve o país da dedada! (Perdoa-nos, Senhor, porque trocamos aquele maior dos teus mandamentos pelo dedai-uns-aos-outros.) Do jeito que o demo gosta. Demonstrado está, ademais, que o mal imperando, a indústria lucra. A de dedetização produz superfaturados líquidos químicos com água a quase R$ 5. A farmacêutica deixa a desejar no preço dos repelentes — quando há para vender, cerca de R$ 12. E o comprimido? Mais de uma cartela de R$ 2 por dia. Desisto, deve haver um jeito de exorcizar a letra "d" do alfabeto. Deus-dará!

(À Priscila, suposta infectada pela famigerada ocupante da quarta posição no... Ah, vocês sabem!)

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15.3.08

Sem “a priori”

Um ‘a priori’ é algo que elimina qualquer possibilidade de experiência.

A curta frase acima é a primeira anotação que consta na folha do caderno que levo para a universidade onde curso Inglês/Literaturas. Sempre gostei de anotar durante as aulas, mas nunca soube precisar a utilidade deste gesto. Acredito que seja em virtude da memória, que, de tão falha, carece de reverberações — devaneios — dos momentos vividos para memorar alguma coisa. Não basta a mente, é preciso reviver a experiência que levou minhas mãos a reagirem diante da lauda virgem. Por isso, não adianta muito ler o papel ferido pela grafite se não sentir as palavras ali desenhadas. E se o desenho é uma arte, logo, toda escrita é uma arte. Ora, “nenhuma obra de arte foi feita para ser entendida, mas sim alienada” — como admoestam as últimas palavras ainda escritas naquele dia, durante a aula de Literatura, História e Crítica Cultural no Século XX, completadas por um “É preciso alienar-se na obra de arte”. (Dali em diante, não escrevi mais nada no caderno.)

Eis uma palavra-chave: “alienar”. Em sua etimologia, esta palavra remonta o sentido de “transferir para o outro o seu direito de propriedade”. Ou seja, deixar de estar no mesmo lugar estático de sempre, chamado “eu”, que acaba se convertendo num individualismo egoísta, pretensiosamente despreocupado com as outras pessoas. Não se percebe, no entanto, que há um outro dentro de nós, com o qual convivemos numa relação dialética, pois é sempre o outro quem sabe de mim, não eu.

Se houver um “a priori”, não se aliena. Não se tem experiência. Não se escreve no caderno. Não se atenta ao outro. Afinal, não há alteridade, não há arte, não há memória.

Lembro-me de uma palestra que ouvi do Rubem Alves, onde ele reclamava do público ficar tomando nota enquanto o escutava. Sua indagação era a seguinte: Se nunca lemos o que escrevemos, por que diabos anotamos durante as aulas?

Ora, a anotação só tem efeito se for “a posteriori”, revivendo a própria escrita. Se não nos desvencilharmos do “a priori”, isto é, de que entendemos tudo o que foi dito pelo palestrante e de que não precisamos aprender mais nada, jamais seremos capazes de deixar que a arte anotada fale aos nossos ouvidos surdos e, diria, inalienáveis.

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13.3.08

Uma confissão

A cada dia mais me convenço de que não sou nada, percebendo-me humano, demasiadamente humano; e de que preciso ser transcendido para além desta minha condição humana. Sinto, no entanto, que não cabe a mim este esforço, porque, vez ou outra, percebo-me tomado por algo que me toca incondicionalmente. Assim, sou dominado, não domino. Mas tem uma coisa: isso pode acontecer tanto ali na padaria da esquina como na igreja. Aliás, confesso, ultimamente tenho gostado muito de pão.

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29.11.07

Oratório

Procura-se um oratório. Um lugar da minha casa onde eu possa dedicar-me à oração. A casa da gente tem lugar para tudo, menos para isso. Sinto-me desconfortável orando para o vento, em qualquer espaço ordinário. Nunca oro como queria. Apenas falo, converso e acredito que haja ouvidos.

Lá no interior de Minas Gerais, de onde venho, há nas casas uma casinha de madeira decorada, que eu, nascido em lar protestante, nunca entendi direito para que serve. Achava que era um lugar de guardar o santo, uma espécie de altar, para onde se recorria sempre que quisesse alcançar uma benesse, sem, no entanto, esquecer de acender uma vela. Confesso que nunca vi ninguém fazendo isso. Só confabulava para mim mesmo.

Hoje vejo diferente. Aquele lugar, chamado oratório, era um espaço sagrado da casa. Que coisa linda! Minha casa não tem lugar sagrado. Mas meus conterrâneos conservam aquele espaço, cujo hierônimo também designa uma composição ou um poema de caráter dramático, uma espécie de ópera espiritual. Eu diria: oratório significa a arte de orar. A composição do termo nos revela que, para orar, é preciso ter espaço. Mesmo os de tradição mais iconoclasta, como esse que vos fala, vai sentir falta desse sacro lugar.

Sem oratório não há oração. Creio piamente que o movimento protestante incipiente não queria atirar pedras nos símbolos irresponsavelmente, como fazem muitos hoje. Antes, precisava descobrir no lugar de oratórios um oratório. Sabia-se, claro, que ninguém vive sem oratório, sem um lugar sagrado. Se o oratório não for aquela casinha, vai ser outra coisa. A propósito, em lugar algum a oração vai começar se não houver oratório, pois havendo sagrado exterior, haverá, sempre, sagrado interior.

Escrevi esse texto inspirado no som da voz de Milton Nascimento na seguinte canção:

Ó Deus salve o oratório
Ó Deus salve o oratório
Onde Deus fez a morada
Oiá, meu Deus, onde Deus fez a morada, oiá
Onde mora o calix bento
Onde mora o calix bento
E a hóstia consagrada
Óiá, meu Deus, e a hóstia consagrada, oiá

De Jessé nasceu a vara
De Jessé nasceu a vara
E da vara nasceu a flor
Oiá, meu Deus, da vara nasceu a flor, oiá
E da flor nasceu Maria
E da flor nasceu Maria
De Maria o Salvador
Oiá, meu Deus, de Maria o Salvador, oiá

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14.11.07

A monja

Todos a esperavam. Queríamos conhecer aquela senhora que tem aparecido na televisão vestida de uma indumentária pouco comum aos brasileiros. Ela chega à sala, acabando com a ansiedade de todos e todas. O gesto das duas mãos juntas e da cabeça abaixada ao mesmo tempo demonstra saudação. Quanta cortesia! Demorou quase nada para ouvir a sua voz, tão doce e tão firme. Após uma pequena meditação — pés no chão, ombros retos, respiração profunda uma vez, olhos abertos concentrados em uma direção, dentes e lábios tocando levemente um no outro, e as mãos (ah, as mãos!), a mão direita deveria estar embaixo da mão esquerda, encostando-se, ambas, ao abdômen, “como se segurássemos uma folha de seda”, orienta ela —, a monja iniciou a sua aula.

Que aula! A etimologia desta palavra “aula” remonta o sentido, tanto no latim como no grego, de “pátio de uma casa”. Ou seja, tem mais a ver com um espaço do que com um evento. A aula da monja foi assim, um espaço comum — de uma universidade — que se tornou sagrado. Ela falou como se estivesse num pátio de uma casa, preocupada apenas com o espaço de abertura para o diálogo no qual nos encontrávamos. Uma conversação simples, cheia de ternura e sinceridade. Adepta da religião zen-budista, em momento algum ela se mostrou mais iluminada que qualquer um ali presente. Pelo contrário, revelou suas crises — como todos nós as temos —, crises essas, é preciso dizer, ocorridas tanto na sua atual religião, como na sua religião de origem — o catolicismo. Não foi difícil se identificar com essa mulher.

Tantas eram as perguntas que a identificação sobrepôs à curiosidade. Acreditem. Logo após a aula, fomos, alunos e alunas, almoçar com a monja. Lá a comida teve gosto de inesquecível. Seu sorriso e seu olhar profundo são dignos de memória, principalmente por abrirem a janela de nossa mente para o encontro com uma alteridade, tão diferente da nossa. Como se as eternas diferenciações entre ocidente — éramos todos protestantes e católicos — e oriente estivessem sendo diluídas num simples e profundo bate-papo, que acabara em banquete numa grande mesa, com cadeiras do mesmo tamanho. Oxalá os encontros entre as religiões fossem assim, qual seja, terminassem em comida! Esse ritual sagrado de se alimentar juntos é uma das mais antigas tradições da humanidade. A monja comeu conosco, nós comemos com a monja. Como cristão, guardarei a lembrança deste espaço aberto, que possa assim se manter para que seja sempre sagrado!

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18.10.07

Osso catártico

Mal chego em casa, lembro de domingo, quando conversava com o senhor Geraldo. Homem de mais de oito dezenas de anos, ele foi um dos 200 mil torcedores cujo grito fora silenciado no Maracanã na decisão da Copa do Mundo de 1950. Lá, como se sabe, o Brasil amargou uma das piores derrotas de sua história, perdendo em casa por 2 a 1 de seu vizinho Uruguai. Esse osso na garganta incomoda até hoje.

Incomodava. Agorinha mesmo ele foi arrancado, pelo menos da minha. A seleção verde-e-amarelo não deixou os mais de 80 mil exaltados brasileiros, balançando as bandeirinhas de plástico à toa. Verdade seja dita: estava todo mundo com medo de voltar para casa arrependido de ter pagado ingresso para manter o tal do histórico osso futebolístico goela adentro. Ainda bem que não foi assim.

As famigeradas vaias que Lula ouviu no mesmo lugar do jogo foram convertidas em aplausos para os cinco gols marcados pelos arrancadores de osso mais famosos e bem pagos do mundo. O Equador foi a vítima mais disposta a estragar a catarse do já arquetípico osso. Pressionou o tempo todo. Só parou quando se viu no ridículo de ouvir “olé” cada vez que os jogadores brasileiros tocavam a bola. Afinal, o osso tinha de ser jogado em alguma garganta, que, não fosse na uruguaia numa final de Copa do Mundo, pelo menos seria na primeira que se candidatasse a engoli-lo. O goleiro, coitado, ficou até com a dívida de levar do Maracanã, que já foi o maior estádio do mundo, não apenas um osso de lembrança, mas também um frango.

Mas, vocês me dão licença, porque minha garganta precisa descansar depois de agüentar tanto tempo um osso que ora se torna catártico.

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5.10.07

O dia que vi o mar

Uma página do livro da minha vida se chama Copacabana. Este era também o nome do ônibus dentro do qual entrei disposto a chegar a algum lugar que tivesse a tão famosa água salgada. Ao sentir a brisa da maresia, percebi que este era apenas um detalhe a mais que se juntaria aos pés descalços na areia, ao camarão frito, à pele bronzeada e à sombrinha em plena alta temperatura da cidade. “Cidade Maravilhosa!”, exclamei dentro de mim, com a certeza de que o nome Rio, dali em diante, significaria um pouco mais além do estigma de lugar mais perigoso do país. Estava ali, mas o mundo estava logo ali, para além daquele horizonte azul. “Mundo, mundo, vasto mundo”. Drummond certamente não disse isso pensando em Itabira. Itabira? Era apenas “uma fotografia na parede”. Como não poderia deixar de ser? Qualquer Itabira diante daquele mundo de água seria relegada a ficar pendurada na parede da memória.

A Avenida Atlântica, que só conhecia no Banco Imobiliário, agora não passava de um obstáculo de quatro pistas para se chegar à praia. Uma estátua daquele poeta conterrâneo, cravada no calçadão da orla, me fez sentir em casa. Bom seria mesmo que aquele lugar fosse a minha casa. Morar diante daquela imensidão anil, cuja semelhança com o céu da minha terra provocou em mim o esquecimento de que um dia ela fora privada de ter seu próprio mar, seria o sonho de qualquer pessoa com consciência de sua condição humana. Sabe aquele sentimento de que a gente nasce, cresce e morre? Diante do mar isso não existe. A eternidade mora ali, no infinito, no oceano. Naquele lugar, onde se esquece de que a vida está de costas para ali. Deve ser por isso que o cidadão mais ilustre da minha cidade foi morrer de frente para aquelas águas. Ele nunca morreu. Lá está até hoje! Se eu tivesse de escolher um lugar para morrer... Ah, deixa isso pra lá!

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15.6.07

Pastoral às avessas

Fã infantil do primeiro testamento do conjunto de livros sagrados cristãos, vez ou outra me pego lendo a obra mais pastoral de todas em minha opinião, chamada Eclesiastes. O capítulo 3 deste aporético livro contém uma seqüência de coisas difíceis de se entender, incluindo um eterno adágio: “tudo tem o seu tempo”. Não entendo o chorar, muito menos o rir. Mas lá está escrito que há tempo tanto para aquele como para este. É verdade! Hoje eu me vi no abismo dos dois verbos.

Ao fazer meu primeiro funeral como novel pastor, à tarde, li que há tempo de estar calado, bem como há tempo de falar. Obviamente, o silêncio foi a mensagem. Não queria dizer nada além de uma ausência de discurso. Espera-se, no entanto, que um ministro religioso use a sua língua nestas horas. Usei. Não mais que 5 minutos, sendo um de solene silêncio. Jamais esquecerei daquelas reticências. “Quando as respostas se transformam em perguntas, quando as certezas se transformam em incertezas, quando a alegria se transforma em tristeza, quando o riso se transforma em choro”...

À noite, porém, saboreava uma garfada de strogonoff de carne em uma festa de aniversário de alguém da igreja. Falar era o mais importante. Futebol foi o assunto. Risadas aos montes. Reticente me senti apenas na hora de ir embora. Em boa hora!

Voltando para casa, agorinha, pelas ruas frias e vazias da Tijuca, lembrava-me daquilo que mamãe me disse quando criança: “chore com os que choram, alegre com os que se alegram”. Confesso: continuo sem compreender!

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5.5.07

Uma auto-ajuda

Viver é morrer aos poucos. Nunca achemos graça na cotidianidade sem reinventar nosso próprio cotidiano. Afinal, não temos o direito de escolher se morreremos ou não. O melhor que temos a fazer é nos encontrarmos com aquela luz no finalzinho do túnel a cada aurora, a cada crepúsculo. Uma hora o céu vai brilhar, outra estará cinza. Vai chover, haverá calor e frio. O gosto será doce e salgado. Verdadeira incoerência! Mais construtiva que destrutiva. Teremos fome e sede, comendo e bebendo. Já sentimos e nos deixamos sentir. Choramos e sorrimos. Lágrimas e risos são apenas provas da nossa existência. E assim os anos são contados. Estou prestes a contar mais um...

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30.4.07

Nunca mais serei o mesmo

Já ouvi muitos pregadores, os quais disseram palavras e mais palavras, mas jamais esquecerei de um pastor amigo que resolveu pregar com uma atitude nada conveniente para hoje. Mesmo após alguns dias de uma cirurgia na perna, ele abaixou-se para lavar os pés dos seus ouvintes. Piegas? Sei lá. Só sei que se um dia alguém lavar seus pés, você nunca mais será o mesmo.

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27.4.07

Teologia acrobática

A praia de Botafogo hospedou, no último fim de semana, a segunda etapa do Circuito Mundial de Aviões, realizado pela primeira vez na América Latina. O evento consistiu de um show de acrobacias feitas por pilotos experientes. Ganhou quem foi mais rápido, realizando o percurso da maneira mais perfeita possível, sem esbarrar em algum obstáculo. Estar lá, assistindo entre um milhão de pessoas, levou-me a descobri o método da teologia.

Sempre foi vocação dos teólogos voarem. Aliás, este é quase um princípio para quem se aventura a fazer teologia: voe o mais alto que puder. Contudo, o vôo depende muito do piloto. Não adianta ficar fazendo acrobacias sem seguir um percurso pré-definido. Há muitos obstáculos pelo caminho, nos quais se pode encostar ou não. Se encostar, considere-se longe de ser um grande teólogo, no sentido clássico da palavra. Afinal, teologia que se preze precisa voar perfeitamente bem, sem atingir os obstáculos, até chegar à mais bela das acrobacias. Ter a infelicidade de tocar em um dos chamados pilões é motivo para se considerar um teólogo fracassado. Piloto que é piloto sabe bem controlar seus movimentos, aquele que não o faz precisa de mais treino, ou está na profissão errada.

Todavia, o problema da teologia é justamente esse: se pretender perfeita sem ser perfeita. As asas dos nossos aviões são frágeis. Nem os melhores pilotos podem garantir o sucesso contínuo a cada etapa. Por isso, é impossível viver de acrobacias sem a noção de perigo. O teólogo vive dessa consciência mais que necessária, pois sabe que a qualquer momento pode cair lá de cima.

A teologia é, portanto, acrobática, porque faz, com muito treino, manobras que podem ser perfeitas ou não. Quanto mais rápida, perfeita e inerrante for, mais próxima estará dos aplausos. Quanto mais se esbarrar nos obstáculos, mais próxima estará da sua natureza inerente, o risco de cair.

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12.4.07

Utopia

Está em extinção a palavra utopia. Afinal, temos descoberto, a cada dia, que é mais fácil ser cínico do que utópico. Há resistências, mas a tendência geral é de um esfriamento daquele comprometimento ideológico com o bem-estar da coletividade. A raça sujeito utópico fica rara entre muitos filósofos de hoje, mais preocupados com a lógica do que com o inexplicável, pois se calam — leia-se: não se interessam — diante daquilo que não sabem (Wittgenstein). A palavra utopia foi transformada em sinônimo de quimera, fábula, ou ficção. Assassinado está o sentido do não lugar que aponta para um ideal que de tão sublime vale a pena tentar construí-lo aqui e agora. A ironia, então, passa a ser regra filosófica e ninguém, por favor, não ouse falar em paraíso.

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4.4.07

Com ou sem chocolate?

O meu desejo, nessa páscoa, é que possamos enxergar para além dos símbolos alheios e olhar para os nossos próprios símbolos através destes símbolos até esdrúxulos, como um ovo adornado. Em outras palavras, vamos falar de chocolate e falar de morte e ressurreição. Vamos falar de morte e ressurreição e falar de chocolate.

A cultura diz chocolate. Nós dizemos morte e ressurreição do grande libertador da humanidade. Mas não é tão fácil assim. Falar jogando palavras ao vento é balela. Quero ver falar com a vida. Isso aí! Morte e ressurreição na vida. Já dizia um sábio cristão: "pregue o evangelho, se necessário use palavras".

Esquecer o chocolate? Não. É preciso transcendê-lo, isto é, passar além do normal, do natural. Partir do chocolate para a morte e a ressurreição. Creia: Jesus faria o mesmo. Ele não trucidaria a cultura. Não! Ele daria sentido à cultura. Isso é santificar: transcender o profano para o sagrado.

Somos gente. Por isso somos imanentes, ou seja, o oposto de transcendente, ou seja, somos chocolates, quer queiramos ou não. Não passamos de uma mera pasta alimentar que se prepara com cacau, açúcar e outras substâncias.

Sei que é difícil olhar para o chocolate e encontrar crucificação e ressurreição. Quanto mais olhar para o Cristo crucificado e ressurreto e encontrar o chocolate. Todavia, é só através dessa mistura, imanência e transcendência, chocolate e cruz, que a gente pode falar de morte e ressurreição na páscoa dos nossos dias. Vamos assumir!

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