4.1.10

Não dá para separar

Não dá para separar Deus da humanidade ou a humanidade de Deus. Jesus destruiu este abismo entre nós e Deus. A sua vida é uma expressão genuína do que é viver diante de Deus e das pessoas.

É de lamentar que as igrejas evangélicas hoje estejam pregando muito sobre alcançar graça de Deus, mas pouco sobre alcançar graça das pessoas. Isso faz com que queiramos converter pessoas para dentro de uma religião organizada, em nome de Jesus, mas nunca aprendamos a viver a vida que Jesus viveu, que não separa Deus das pessoas.


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12.7.09

Futuro sombrio

A Folha de S. Paulo destacou na capa da edição de hoje do seu caderno cultural mais! os 500 anos do reformador da igreja cristã João Calvino (1509-1564). Curiosamente, o texto especial, “Calvino, 500”, diagramado em duas páginas, fora escrito por um sociólogo, Antônio Flávio Pierucci, chefe do departamento de sociologia da Universidade de São Paulo — aquele mesmo que se dedica a estudar o pensamento de Max Weber (1864-1920). Sem mencionar que o caderno ainda trouxe um artigo de uma página sobre o “anticalvinismo” das igrejas evangélicas brasileiras, assinado por uma antropóloga.

Este fato nos mostra que os teólogos protestantes cada vez mais perdem sua relevância social no Brasil — se é que algum dia a tiveram. Afinal, não são confiáveis nem mesmo para falar de sua própria tradição.

Justamente nesta semana um conhecido me pediu informações sobre como entrar no curso de teologia onde leciono ética, sociologia e filosofia da religião. Devo admitir, porém, a ressalva: a alguém que se forma em teologia está reservado um futuro profissional bastante sombrio.


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14.1.09

O que é fé?

A fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem. (Hb 11,1)

Quando se olha para uma definição, como essa descrita na Bíblia, a primeira coisa que nos vem à mente é uma pergunta. Se há um texto nos dizendo que fé é alguma coisa, é porque alguém perguntou “o que é fé?”. Portanto, a fé já nasce com um questionamento, com uma dúvida.

Opa, mas ali tem uma palavra contrária à dúvida, que é “certeza”. Certeza de quê, afinal? Daquilo que esperamos. Convicção? De quê? “Das coisas que não vemos”.

Ora, como pode haver dúvida e certeza juntas? Apenas através da fé. Através desta palavra, nos sentimos tocados por algo que ultrapassa as nossas dúvidas e certezas. Por mais necessário que seja, ter dúvida apenas ou ter certeza apenas não é o mais importante.

É preciso dúvida, é preciso certeza, e as duas convivem juntas numa relação de aprendizado do que é fé.

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3.1.09

Teologias de vanguarda

É curioso que em um país como o Brasil, onde se desenvolveu, como em muitas partes do mundo, discursos de libertação na teologia, haja intelectuais dispostos a se pronunciarem de maneira pública contra movimentos teológicos que visam a transformação da realidade em consonância com outros movimentos sociais.

Este foi o caso do professor do curso de Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Luiz Felipe Pondé, que através de uma infeliz opinião em sua coluna semanal no jornal Folha de S. Paulo (acesse via Pavablog), fez jus à pecha de conservador, ao não apenas detratar com ironia as tendências de vanguarda dentro da teologia, mas também fazer um julgamento precipitado a respeito do assunto que considera uma questão de mero gosto pessoal. Leia o que ele diz:

A teologia feminista diz que ‘a Deusa’ existe para punir o patriarcalismo. A teologia bicha (Queer Theology) se pergunta: por que Jesus viveu entre rapazes, hein? Alguns latino-americanos vêem Nele um primeiro Che, hippies viam um primeiro Lennon, outros, um consultor de sucesso financeiro. Ufólogos espíritas dizem ser Ele um extraterrestre carinhoso. Prefiro o cristianismo antigo. (...) O Cristo antigo é um clássico. Melhor do que essas invenções da indústria teológica de vanguarda, feitas para o consumo moderno.

É possível que ao criticar os movimentos inovadores dentro da teologia, caricaturados por ele como “invenções da indústria teológica de vanguarda”, Pondé caia no mesmo conservadorismo da Inquisição, que em nome da fé correta, perseguia quem pensava diferente a respeito dos dogmas. Pondé julga as outras teologias a partir de um paradigma teológico que para ele deve ser o correto.

Acredito que as pessoas tenham o direito de enxergar a religião conforme aquilo que faça sentido para as suas vidas, sem serem julgadas por isso, mesmo que estejam distantes da teologia clássica. Afinal, esta liberdade de pensamento em assunto religioso é assegurada pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, no seu artigo XVIII:

Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, em público ou em particular.

Pondé, meu caro, leio suas idéias toda segunda-feira, mas, desta vez, não deu para ficar só na leitura silenciosa. Desculpe-me pelo barulho.

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12.12.08

Justiça divina

A lei de Deus me parece bastante simples na boca de Jesus. Tudo não passa de fazer com o outro aquilo que você quer que seja feito consigo mesmo. (cf. Mt 7,12) Tal ideal fortalece o princípio de justiça para todas as pessoas como responsabilidade de cada um de nós e, por conseguinte, quebra a noção de que o único caminho possivelmente justo no planeta é o toma-lá-dá-cá, ou o velho olho-por-olho-dente-por-dente.

De quebra, ainda ficamos com um embaraço: tudo o que quero é o meu bem, mas será que quero o bem do outro? Na verdade, esta pergunta ainda não se faz entendida. Gostaríamos de ficar sem roupa para vestir ou sem alimento para comer? Gostaríamos que as pessoas nos passassem a perna? Gostaríamos que fossem injustos para conosco?

Neste exato momento, ouço os seguintes versos cantados:

Heal the world,
Cure o mundo,
Make it a better place
Faça dele um lugar melhor
For you and for me
Para mim e para você
And the entire human race.
E para toda a humanidade.
There are people dying.
Há pessoas morrendo.
If you care enough for the living,
Se você liga pra quem está vivo,
Make it a better place
Faça do mundo um lugar melhor
For you and for me.
Para você e para mim.

Quando ouço as pessoas dizerem na igreja que Jesus morreu, é quase que instintivo reagir assim: “Mas ele ressuscitou.” Ressuscitou e ressuscita. Olha ele aí falando pela boca do Michael Jackson!

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24.11.08

Deus por ele mesmo

"Sou quem sou."

(cf. Ex 3,14)

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17.11.08

Da salvação

Pois eu não vim julgar o mundo, mas salvar o mundo. (Jo 12,47)

Estamos salvos. Jesus nos assegura esta confiança. Afinal, ele veio aqui unicamente para nos salvar. Quem se sente salvo sempre se sentirá salvo. Não é um dia da vida, mas é eternamente. Nada pode anular esta esperança. Ele, Jesus, veio nos salvar. E nele estávamos salvos, estamos salvos, e estaremos todos os dias salvos.

É lamentável, porém, que o medo esteja aí. Se alguém está com medo, é porque está cego. É porque não quer ver a vida, preferindo fugir da realidade. Pode até querer ser religioso, mas não quer saber de deixar sua vida se transformar de modo que a cegueira do medo seja curada. Por isso, esse mal parece sem cura, sem salvação.

Salvação e cura são sinonímicas. Aliás, a palavra “saúde” vem da palavra latina “salute”, que significa “salvação”. Salvação é uma cura que Deus realiza em nós, dando-nos vida. John Wesley (1703-1791) nos ensina alguma coisa importante sobre isso. Com ele, aprendemos que salvação é a restauração total da imagem deformada de Deus em nós, e sua realização plena é a recuperação de nosso poder negativo de não pecar e nosso poder positivo de amar a Deus sobre todas as coisas.

Negatividade e positividade, pólos humanos sem contato um com o outro, mas que convivem dialeticamente, isto é, um lá e outro cá, um cá e outro lá. Volta em cena a ambigüidade. O que seríamos nós sem ela? A terapia divina respeita o lado ambíguo humano, fugindo da unilateralidade de enfatizar apenas a possibilidade de eu ser bomzinho. Ao contrário de ser perfeito, ser salvo é ser curado dia após dia. A imperfeição não passa de uma outra dentada diária no fruto edêmico. Desculpai-me, senhores, se ninguém vos avisou: nós somos humanos — se ainda lembram de Paulo: “todos pecaram e estão privados da glória de Deus.” (Rm 3,23)

Se salvação não é um processo terapêutico de cura, onde Deus está trabalhando em nós, para quê vou sair da minha casa e ir à igreja aos domingos? Só para ouvir que estou perdido? Pois bem, todos estamos, inclusive vós.

Portanto, assumir a ambigüidade é uma coragem de estar para além de si, para além das chagas sangrentas da humanidade. É se deixar curar, não com remédios patenteados pelas nossas instituições religiosas, mas com a gratuidade da vida — deram-nos a vida, para lembrar quem se esqueceu. (Paulo de novo! O versículo debaixo, senhores — “justificados por sua graça”.) Com isso, nós estamos sendo santificados por esta graça através de uma cura que quem efetua é Deus, através de seu Espírito, não nós, não nosso esforço, não as fórmulas dos nossos sacros boticários.

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18.9.08

Da “nomia”

Alguém já deve ter ouvido ou lido eu dizer algo ruim sobre “moralismo”. (Êta palavra feia!) Na verdade, uso este termo por mera preguiça de simplificar uma longa e inevitável discussão filosófica da moral.

Não sou filósofo, mas, como teólogo, exerço o ofício de ouvir perguntas filosóficas que, a depender do dia, a/s minha/s teologia/s vai/ão se aventurar a dar resposta/s. Hoje poderia tentar responder questões já clássicas como estas que cito gostosamente na versão mineira: “Oncô vim?”, “Oncô tô?”, “Oncô vô?”. No entanto, prefiro refletir sobre a profundidade da resposta moral para a pergunta que, confesso, não sei qual é.

Moral, em curto sentido, diz respeito aos bons costumes sociais, que as pessoas tendem a adotar com vista a algum ideal. Na religião, este ideal tende a ser espiritualizado. É uma conduta comportamental que, no fundo, quer repetir o ato prometéico de tentar roubar algum fogo dos deuses. O objetivo religioso é atingir um estado não-humano capaz de transcender carne e osso até os céus. (Quantos Vieira’s e Newton’s precisaremos para aprender que se jogar coisas para cima elas caem de volta para a Terra?)

Se Prometeu ficou mal na fita, isso também serve para nós. Adão e Eva que o digam! O casal nos ensinou a lógica do “aqui se faz, aqui se paga”. Inauguraram a moral, pegando o que não é seu. A história todo mundo já sabe. Assim como Prometeu havia roubado o fogo do Olimpo, os pombinhos surrupiaram da “árvore do conhecimento do bem e do mal”. Isso significou a entrada de cena da palavrinha “nomos”, ou lei. Para ficar mais fácil, prefiro chamar de “nomia”. Porque ela faz parte de três outras palavrinhas: teonomia, heteronomia e autonomia.

Em Gênesis, antes do banquete sinistro, nada disso fazia sentido. Não havia lei. Tudo era possível, inclusive o surgimento da lei. A fala divina de que não poderia comer do fruto estava mais para descrever o território que proibir o acesso a ele. Tanto é que é dito: “no dia em que dele comer certamente morrerás”. Por certo, a qualquer momento isso iria acontecer.

“Nomia” surge com a dificuldade humana de não saber conviver com a tensão entre forças transcendentes, externas e internas. Depois do Éden, a teonomia, a heteronomia e a autonomia se tornam instâncias antagônicas. Concorrem entre si. O ser humano provou não saber conviver sem a tal da “nomia”. Trocou o Jardim de Delícias pelo Jardim da Lei. O mundo dos deuses (teos), o mundo exterior (heteros) e o mundo interior (autos) passaram a se digladiar para ver quem ganha o prêmio de melhor ditador das leis. O ambiente edênico era propício para a Teologia, a Filosofia e a Poesia; já o pós-edênico, para o Direito.

Reina o “moralismo”, que nada mais é que uma vitória da lei sobre a integridade do Criador, da criação e da criatura. A gente esqueceu que a lei simplesmente não existe. Mesmo assim, ela, não existindo, venceu tudo o que há.

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11.9.08

Graça

Dia desses comentei numa conversa com adolescentes na igreja que a Graça não passa de uma piada divina. A galera riu, principalmente quando descobriu “graça” em “engraçado”.

“Imaginem o perecível não perecer e ainda ter vida eterna...”, empolgadíssimo, argumentava eu. Mais risos. “Graça pura, gente!”, completei.

Aprendi, então, que perde a chance de rir de graça quem não lê Jo 3,16.

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27.8.08

Jesus e a crise máscula

Minha professora de Teologia Feminista dizia que a busca teológica pelo Jesus histórico sempre revelava alguma crise pela qual os homens passam, tanto que não há teóloga preocupada com isso. Deve haver algum pingo de verdade nesta afirmação. Afinal, estou há mais de seis meses lendo um pequeno livro sobre a vida daquele homem de Nazaré e não quero nem pensar na possibilidade de terminá-lo.

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24.7.08

Palavra de Deus

Jesus escreveu na areia, não na pedra.

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7.7.08

Minha/s causa/s

A paixão é efêmera. Por isto mesmo, sinto-me apaixonado por causa/s. Não há prazo de validade para o sentimento. Dura enquanto houver fôlego. Jesus que o disse quando deu o último suspiro na cruz.

Paixões não falta(ra)m, nem faltarão, pelo menos é o que se observa desde quando o nariz adâmico recebeu o sopro divino. De lá para cá, inaugurou-se o desassossego de ar entrar e ar sair... Só assim podemos nos apaixonar.

Minha/s causa/s, portanto, é respirar, enquanto eu não for para o Gólgota consumar minha paixão.

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18.6.08

Teologia errática

Quero ser um teólogo do erro, do tropeço. Adão, o primeiro humano, não acertou: ele deixou o mundo dos certinhos para trás quando se deliciou do não-deliciável. Se há uma possibilidade de dialogar com o theos que se irrompe na transgressão e subversão, sinto-me teologando no interlúdio, na fissura, do choque entre o sagrado e o profano. Quererei mais ausência que presença, imanência que transcendência, finitude que infinitude, incerteza que certeza, dúvida que conclusão, pergunta que resposta, hipótese que teoria, provisoriedade que definitividade, poesia que ciência, fé que religião, esperança que verdade, paixão que compromisso, amor que crença, abismo que fundamento... E por aí a gente vai errando. Afinal, toda teologia é errada, já que o theos nunca pode ser logado.

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15.4.08

Gênesis 1,1s

Quando resolveram brincar de massinha, após enjoarem de ficar olhando um para a cara do outro, no auge dos tempos de descanso que qualquer ser vivo invejaria viver, fizeram o céu e a terra, ou, como deve ter dito o mais pessimista, inventaram sarna para se coçar. Nada antes, nada depois. Apenas um forte vento provocado por suas constantes nadadas nas águas. Esta era a única diversão da época. Cansaram de concorrer entre si quem chegaria mais rápido do oriente ao ocidente. Até que descobriram a hidroginástica como terapia para suas recorrentes câimbras. Era só parar, como foi observado, que o próprio movimento dos oceanos lhes curava as feridas. Gostaram tanto da atividade que dali não quiseram mais sair. Perderam, então, sua capacidade criativa, e viram um enorme abismo surgir logo ali. As trevas ficavam cada vez mais assustadoras. Ninguém suportava outro mergulho, que soava sarcástico e até leviano. Não havia outra saída senão abrir a boca até então silenciosa para pronunciar as palavras criadoras. Essa idéia de falar não agradava muito àquele persistente sentimento conservador de manter as coisas do mesmo jeito, mas no fundo o desejo de arriscar nunca foi deixado de lado, sobretudo por incitar seus instintos mais juvenis, dos quais todos sentiam saudade nesse momento de crise. Venceu a juventude, venceu a inovação, venceu a criatividade — talvez, é verdade, lá na frente alguém vá dizer: “Não falei; era melhor não ter feito tudo isso”. Todo mundo tinha consciência de que poderiam se arrepender de sua decisão, sendo julgados por si mesmos, porém nunca um tiro no pé foi tão necessário.

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10.4.08

Alto preço?

Os desumanos absolutistas que sempre existiram querem nos salvar de uma queda inevitável, que aconteceu lá no tempo dos demiurgos. Adão e Eva trocaram o tédio da certeza do divino jardim de delícias pelo desespero da incerteza de cair no abismo humano chamado história. (Qualquer um de nós faria o mesmo!) Desde então, não faltaram déspotas, tiranos, soberanos, ditadores e imperadores cuja mão de ferro se sustenta pelo alto preço da ilusão de dar salvação a uma humanidade eternamente perdida.

A própria condição humana, no entanto, é de sofrer as conseqüências inerentes àquela saída do paraíso — que todos nós fazemos quando nascemos, deixando o ventre paradisíaco da nossa mãe —, porque preferimos a contingência de um mundo feito de gente de carne e osso, onde nos tornamos seres históricos, ao status de divindade do Éden, onde estaríamos condenados a ficar andando nus um ao lado do outro sem perceber que estávamos.

Iludir-nos com quem não somos, portanto, custa caro, mas entender quem somos é de Graça.

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7.1.08

Defender Deus?

Impressionante a nossa capacidade enquanto clérigos de tentar defender Deus, como se ele estivesse diante de uma fogueira clamando por clemência. No entanto, o fato de se poder "falar mal de Deus" já revela o quanto independente ele é de nossas defesas. Além disso, por mais crentes que sejamos, normalmente admitimos que sua ausência também é importante — no Calvário, até Jesus experimentou o abandono do Pai. Fico pensando: Será que não estaria nos planos divinos sair da jogada e, assim, os nossos esforços apologéticos seriam inúteis?

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20.11.07

Conceitualização da divindade num ambiente de luta das mulheres pela igualdade

Queridos Amigos e Amigas,

É com grande satisfação que divulgo-lhes este artigo de minha autoria, publicado em um importante periódico eletrônico, Netmal in Revista http://www.metodista.br/ppc/netmal-in-revista/netmal02/ppc/netmal-in-revista/. Vocês podem entrar no link e ler outros artigos além do meu. À vontade estejam para comentar aqui as suas percepções. Segue abaixo o resumo do artigo em português, inglês e espanhol.

Resumo: Uma vez que a teologia clássica tem tido dificuldades em responder à realidade concreta das pessoas, em especial das mulheres, algumas teólogas feministas têm proposto uma nova conceitualização da divindade cristã. Embora o conceito de Deus como mãe tenha contribuído neste sentido, há muito que se fazer em prol não apenas de uma emancipação das mulheres, mas da construção de um mundo rumo à igualdade das pessoas, que se dá, por conseguinte, independente de seu sexo.
Palavras-chave: Teologia Feminista, Divindade, Luta das Mulheres, Igualdade

Abstract: Once classical theology has found difficulties for answering to the concrete reality of people, especially women, feminist theology has proposed a new conceptualization of Christian divinity. Although the concept of God as mother has contributed for this task, there are much more to do in order to not only emancipate women but build a world of equality between people, which occurs, eventually, independent of their sex.
Key words: Feminist Theology, Divinity, Women’s Struggle, Equality

Resumen: Como la teología clásica ha tenido dificultades para responder a la realidad concreta de las personas, en especial de las mujeres, algunas teólogas feministas han propuesto un nuevo concepto de la divinidad cristiana. Aunque el concepto de Dios como madre haya contribuido en ese sentido, aún queda mucho por hacer no sólo en favor de la emancipación de las mujeres, sino también a favor de la construcción de un mundo en prol de la igualdad de las personas, condición que acontece, por consiguiente, independientemente del sexo.
Palabras Clave: Teología Feminista, Divinidad, Lucha de las Mujeres, Igualdad.

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7.11.07

Reino de Deus e Nirvana

O diálogo entre cristãos e budistas pode ocorrer a partir de dois símbolos contrastantes: o reino de Deus e o nirvana.

O reino de Deus é um símbolo social, político e personalista. Seu conteúdo simbólico tem origem na imagem de um governante que estabelece um reino de justiça e paz em seus domínios. O nirvana, por outro lado, é um símbolo ontológico. Procede da experiência da finitude, da separação, da ignorância, do sofrimento, e, em resposta a tudo isso, da imagem da unidade sagrada de todas as coisas, para além da finitude e do erro, no fundamento último do ser.

Mas há também pontos comuns entre as duas tradições a partir destes símbolos.

Ambos, reino de Deus e nirvana, são baseados em uma avaliação negativa da existência. O reino de Deus se coloca contra os reinos deste mundo, a saber, as estruturas demoníacas de poder que governam a história e a vida das pessoas. O nirvana também se coloca contra este mundo de realidade aparente, mostrando-se como a verdadeira realidade da qual procedem as coisas individuais e para a qual estas coisas estão destinadas a retornar.

Neste diálogo entre cristianismo e budismo, a história tem destaque.

No símbolo reino de Deus, a história não é somente a cena na qual o destino das pessoas é decidido, mas é um movimento no qual o novo é criado e o qual conduz ao absolutamente novo — conferir “novo céu e nova terra” (Ap 21,1). Isso significa que o reino de Deus possui um caráter revolucionário, pois funciona linearmente, visando a uma radical transformação da sociedade.

Não há algo parecido no budismo. Ao invés de se buscar transformar a realidade, busca-se ser salvo da realidade. Por isso, o interesse social observado no budismo contemporâneo só pode proceder do princípio de compaixão, pois do nirvana não se deriva uma crença no novo na história, tampouco um impulso para transformar a sociedade.

A compaixão é o estado no qual quem não sofre por suas próprias condições pode sofrer através da identificação com um outro que sofre. Isso não significa aceitar o outro “apesar de”, tampouco tentar transformá-lo; mas, isso sim, sofrer seu sofrimento por meio da identificação. A compaixão pode ser uma maneira muito ativa de amor, podendo trazer mais benefício imediato a quem é amado do que um mandamento moral a exercer o ágape cristão.

Portanto, conquanto seja possível encontrar alguns pontos comuns entre reino de Deus e nirvana, diferença é a palavra-chave no diálogo entre cristãos e budistas a partir destes dois símbolos contrastantes. Cada símbolo possui sua importância dentro de sua tradição, merecendo, por isso, seu devido respeito. O diálogo, no entanto, pede uma abertura para comparar as diferenças, o que possibilita um aprendizado mútuo.

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29.10.07

Kairós e chronos

O movimento nascente de cristãos vivia em dois tempos. Enxergava um tempo favorável, o kairós, o tempo de refrigério, aqui e agora, no tempo de restauração, no chronos. Queria fazer alguma coisa para mudar sua situação para melhor, para algo utópico, desencadeando práticas concretas e transformadoras na sociedade. O absurdo de dizer que o tempo oportuno kairótico, isto é, o tempo da plenitude de sentido, poderia ser vivido no tempo presente, no tempo cronológico, repleto de contradições humanas, fez com que os cristãos agissem no hoje como se o amanhã da humanidade deles dependesse.

Aqueles homens e aquelas mulheres acreditavam que estavam antecipando o Reino de Deus. Promoviam tempos de refrigério (ainda não) dentro dos tempos de restauração (). Sua mensagem contemplava as promessas para o futuro e para o presente, vivendo a dialética do Reino de Deus. Eles e elas levavam, pois, esperança na desesperança, antecipando a chegada de dias melhores, ainda que seus dias fossem dos piores.

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22.10.07

A Reforma Radical

No fim deste mês, dia 31, comemoramos 490 anos da Reforma Protestante. Vamos falar um pouco de um grupo reformador cujas idéias foram extremamente radicais.

Dispostos a promover uma reforma dentro da própria Reforma, os reformadores radicais exigiam que se levasse às últimas conseqüências os princípios que haviam dado origem à mudança no cenário religioso do século XVI. Buscando restaurar o cristianismo à sua pureza apostólica — quando não procuravam antecipar a comunidade escatológica —, estes reformadores não possuíam necessariamente uma uniformidade doutrinária, pois além de discordar das opiniões do protestantismo clássico (leia-se principalmente Lutero), discordavam intensamente entre si.

As influências recebidas pelos reformadores radicais foram as idéias humanistas — Erasmo sobretudo —, o misticismo alemão, o milenarismo, o caráter anticlerical bem como o infuso espiritualismo dos inúmeros movimentos religiosos populares da Idade Média, e o acesso às Escrituras no idioma vernáculo. Todos estes elementos formam o pano de fundo ideológico do mundo dentro do qual a reforma protestante radical surgiu. Lutero também foi decisivo para fomentar o movimento, já que abriu caminho para uma compreensão criativa da relação entre Espírito, Igreja e indivíduo. Seu pensamento dava expressão ao caráter profético, carismático, pneumático, místico e pessoal da prática cristã.

No entanto, muitos reformadores radicais se mostraram insatisfeitos com a recusa de Lutero em dissociar experiência interna de fé — ação do Espírito — da mediação externa e visível pela qual ela alcança o fiel — pregação e sacramentos. Temiam que o papa protestante fosse a letra. Para eles, a fé não poderia se aprisionar ao passado, mas se transformar pelo sopro renovador do Espírito. Afinal, o Espírito Santo era interpretado como superior a qualquer registro histórico de suas próprias ações. A Bíblia ou a tradição chegaram a ser consideradas por eles, numa perspectiva extrema, dispensáveis se não comprovassem a experiência religiosa.

Embora esse radicalismo não possa ser aplicado à maioria dos reformadores radicais, os anabatistas, talvez o grupo mais expressivo dos protestantes radicais, se caracterizam por: liberdade em matéria de fé, pluralismo no plano da unidade eclesial ampla, compreensão dos colóquios de reconciliação como uma das notas eclesiais essenciais, rejeição do batismo infantil e representação do martírio como integração — promovida pelo Espírito — dos discípulos no caminho da cruz de Cristo. As principais características do movimento ainda incluem aspectos que não o divergem tanto do protestantismo clássico, mas que o corrigem, como a separação entre Igreja e Estado, os repetidos apelos em prol da liberdade religiosa e da tolerância, e os veementes protestos contra a identificação acrítica da fé cristã com o conformismo sócio-religioso.

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