16.1.10

A escola e seus muros

A escola como ela é. Talvez esta seja a melhor maneira de descrever o filme “Entre os Muros da Escola” (“Entre les Murs”, França, 2008), dirigido por Laurent Cantet. Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2008, a produção se destaca por levar a sala de aula para as telas do cinema. Tal gesto revela o quanto o cotidiano escolar é marcado por conflitos limitados por muitas fronteiras, ou melhor, muros, entre alunos de comportamento difícil, e professores bem intencionados e dispostos a trabalhar em uma escola localizada em um bairro perigoso.

François Marin (François Bégaudeau) protagoniza a figura do professor de francês que tenta, sem sucesso, se aproximar dos seus alunos, muitos dos quais de origem não-francesa. Na condição de docente, ele ocupa uma posição de autoridade que não dá margem para ir além dos limites da velha relação de poder entre dominador (professor) e dominados (alunos). De modo que é inevitável assistir ao filme com uma leve sensação de que as coisas são assim mesmo e de que nada vai mudar. Aliás, não é novidade para ninguém que o sistema educacional é uma máquina pesada que faz as suas vítimas, e que os professores são aqueles que fazem as coisas acontecerem exatamente do jeito que elas devem ser, usando para isso os mecanismos de poder que tem às mãos. Em outras palavras, o muro que separa educadores de educandos parece cada vez mais intransponível.

Levando para a escola toda a sua bagagem de vida, os estudantes são retratados no filme como personagens de uma vida dura demais para se dar ao luxo de pensar em agir de maneira “educada” na escola. Filhos de imigrantes sofrem com os mais variados problemas, entre os quais está o fator ilegalidade. A falta de documentação de alguém da família agrava a constante ameaça de retorno ao país de origem. O muro entre a velha e a nova pátria insiste em ser respeitado. Basta observar uma discussão sobre futebol entre os alunos. Torcer para a França está fora de cogitação para a maioria deles, já que preferem a identificação com uma seleção africana.

Vale lembrar que todo esse tom realista do filme é fruto da própria experiência de François Bégaudeau, quem escreveu um livro sobre seu trabalho como professor numa escola. A obra cinematográfica cumpre assim o papel de documentário, sem deixar de dramatizar pequenas histórias do cotidiano escolar, em torno do qual há pessoas que têm muito pouco em comum além de muros.


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5.5.09

O que faz um bom professor? Minha resposta

Ensinar está longe de ser um trabalho simples, apesar de que levar alguém a aprender alguma coisa não é um privilégio só de quem possui uma licenciatura — por exemplo, quem nunca precisou ensinar alguém, ou ser ensinado, a chegar a um lugar desconhecido? O problema aqui é outro: seria possível uma lição sobre como ensinar bem? Ora, que nenhum aluno considere o rígido professor Girafales a figura exemplar de um bom professor não parece novidade alguma, mas a coisa se complica quando quem ensina não sabe o que fazer para chegar perto pelo menos do professor Pardal, que é amigo de todo mundo. Mas, alguém pode se perguntar, amizade também não tem o seu limite assim como a rigidez com a qual se deve tratar a turma?

Ser professor pode até envolver características que pareçam díspares. No entanto, de modo algum isso significa que não seja possível visualizar um perfil esperado para tal profissão. E por falar em extremos, por que não dizer que um bom professor preza pelo equilíbrio? O bom professor não é aquele que chega com o conhecimento pronto e quer despejar nos estudantes, exigindo decoreba; por outro lado, muito menos ele deve ser alguém relapso com o conteúdo das aulas, que se arrisca nas armadilhas do imprevisto.

O bom professor é capaz de desenvolver estratégias para que seus educandos aprendam. Isso por certo inclui a sensibilidade de identificar o conhecimento prévio que cada um deles traz para a sala de aula. A ideia é que o saber pode ser construído em uma parceria docente-discente, onde quem aprende é estimulado o tempo todo a participar da aula. Do lado de quem ensina, as perguntas têm um papel fundamental neste processo. Afinal, o objetivo não é a quantidade de informações que é passada, mas a qualidade do aprendizado.

Uma orquestra precisa de um maestro e o professor ocupa este papel ao lecionar, pois possibilita que cada aluno desenvolva seu potencial de modo harmônico. Ser um bom professor, portanto, é ter consciência de que não se ocupa um papel de protagonista, mas de regente. Equilíbrio é uma palavra-chave para identificar as necessidades desta profissão, sobretudo quando se aprende que ensinar não é ficar só do lado de lá das carteiras.


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15.1.08

O papel do educador

O educador nunca deveria ser visto como alguém capaz de se sobrepor à sua sociedade e de encaminhar a revolução e a transformação social necessárias. Antes, seu papel deve ser de transmitir, no diálogo com seus alunos, não só conhecimentos, mas também formação de consciência. Neste sentido, é importante a afirmação de valores, a reflexão crítica/autocrítica, as convicções e as dúvidas. A educação, no âmbito do esforço daqueles que lutam por uma democratização mais efetiva da sociedade, não pode engessar os valores, ou esvaziar a práxis, transformando-a num jogo estéril.

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18.5.07

Educação é práxis

Existe uma longa e, diríamos, quase que inesgotável discussão quanto à teoria e à prática em todas as áreas do conhecimento. Uma prática sem uma teoria para pautá-la pode se tornar infrutífera e vazia, e a teoria sem uma prática é simplesmente irrelevante. Uma não deve ser dissociada da outra, elas caminham juntas, completando e se aperfeiçoando. O conceito de práxis se insere nesta discussão.

Karl Marx (1818-1883) chama de práxis a atividade que assume a forma pioneira do trabalho e depois se diversifica. Para ele, cabia ao proletariado, em sua práxis revolucionária, atuar como o portador material de uma transformação social que lhe interessava diretamente, mas também interessava ao conjunto da sociedade. Para isso, era necessário entender que teoria e prática estão totalmente ligadas, pois a práxis não é toda e qualquer atividade prática, mas é a atividade de quem faz escolhas conscientes, necessitando, para isso, de teoria. Apoiado neste conceito, Marx repele sistematicamente tanto a perspectiva idealista, que superestima o papel das idéias e da consciência nas ações históricas dos homens como a perspectiva materialista, que minimiza a importância da intervenção dos sujeitos humanos na constante modificação da realidade objetiva. O ser humano é o sujeito da práxis, pois existe inventando a si mesmo. A história seria o plano onde ele expressa mais significativamente essa sua práxis.

A atividade do educador tem seus limites, mas é atividade humana, é práxis. É intervenção subjetiva na dinâmica pela qual a sociedade existe se transformando, contribuindo para o fazer-se da história. A práxis contribui assim para a inserção da pessoa no movimento da história. A partir dessa concepção de ser humano e de história, como uma dimensão inerente à práxis, que a educação, em Marx, é pensada filosoficamente como uma atividade essencial à dinâmica das sociedades.

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13.1.07

A educação brasileira e os mesmos problemas de sempre

A visão de uma sociedade meramente capitalista gera na administração do país uma dependência do sistema em todos os níveis. Depender de uma estrutura frágil como é o capitalismo envolve todos os setores da sociedade em um ciclo vicioso, de cada vez mais pobreza para os mais pobres e riqueza para os mais ricos. Este fato coloca a economia como elemento mais importante na vivência humana, forjando uma colônia global, onde convivem dominadores e dominados, sustentando um gigante projeto suicida de um império baseado exclusivamente no capital. Todas as relações humanas estão destinadas a este fim, sobretudo, quando se observa em nações pobres como o Brasil, que possuem imensos problemas sociais, frutos do descaso e ambição dos países que se encontram no topo da pirâmide.

Embora este imperialismo capitalista pregue um ideal de uma sociedade globalizada, é visível que o nível de desigualdade torna-se superior ao desenvolvimento. Há pessoas vivendo na miséria, sofrendo com saúde precária, educação carente, desemprego, violência, enfim, há uma extensa lista de problemas públicos que neutralizam o desenvolvimento geral da população. O pior é que ninguém – governo algum – dá verdadeira atenção a esses problemas, quando alguns dão, viram apenas projetos no papel.

Quando se olha para a história brasileira, enxerga-se que estes problemas perduram dos tempos antigos até hoje, porém ainda não se trabalhou para se criar soluções, ao contrário, têm-se deixado crescer e gerar outros problemas para os tempos vindouros. Exemplo disso são as políticas públicas que não viabilizaram a integração do ex-escravo na sociedade, na época da transição para o Brasil República. Hoje se ignora da mesma forma essas políticas, quando continua a haver um crescente grupo excluído da sociedade, que tem gerado outros graves problemas, como o aumento da violência e do tráfico de drogas.

As instituições financeiras externas não foram feitas para pensar em ações sociais, antes, seu objetivo sempre foi financiar o projeto do capitalismo em volta do mundo. Tal empreendimento tem tido sucesso no Brasil, ao retirar dinheiro valioso recolhido de altos impostos de cidadãos trabalhadores que não são providos de assistência do governo em assuntos básicos como a educação. Em outras palavras, os imperialistas do capital querem obter o dinheiro que seria gasto na melhoria e manutenção do ensino de vários estudantes brasileiros. Certamente, este tipo de política fomenta hipocrisia, que é a raiz da corrupção. Não é à toa que quanto mais as exportações crescem no Brasil, menos se vê a cor do dinheiro. O vazamento monetário é patrocinado por uma atmosfera de conformismo ditada pela ordem econômica mundial, para cujo sustento o país tem obrigação de servir através de seus recursos.

Todos se prejudicam consciente ou inconscientemente neste processo, mas quem mais perde são os entusiastas de um projeto educacional que contemple mudanças nesta realidade, pois precisam amargar a sensação de que dificilmente algo irá mudar. As ações práticas acabam se tornando meros atos de militância ou jogos de marketing de grandes empresas que se gabam de ter “responsabilidade social”. Entretanto, o tempo presente não é só desilusão, há possibilidades. Uma dessas é também característica dos tempos atuais: o posicionamento crítico. Embora não sejamos acostumados a nos posicionar criticamente diante das situações, há uma certa abertura para isso, principalmente no meio acadêmico. Expandindo-se o diálogo com a população, através até mesmo do contato diário da profissão, poderá, em longo prazo, contribuir para pelo menos modificar a forma como olhamos para a sociedade, evitando a aceitação de imposições vindas de quem só quer nos dominar. Quem sabe aconteça alguma coisa?

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