25.9.09

O mistério do plural

Não sei bem o motivo, mas creio que fui criado. Leio na sagrada lenda das Origens que o Criador, ao criar a luz disse “haja luz”; ao criar o firmamento, disse “haja um firmamento”; ao criar os luminares, disse “haja luminares”. Mas, na criação da humanidade, disse “deixai que façamos” ou “façamos”.

Quero assim crer que as pessoas não surgem a partir de uma palavra criadora, mas a partir de uma decisão especial no coração da Transcendência. Se antes a fala divina era num tom imperativo, agora ela expressa a mais bela espontaneidade. Cria através de um diálogo. (Sobre isso, dizem que o velho filósofo Sócrates já chamou a atenção para a importância do ato de dialogar, pois o parto das ideias seria por si só dialogal.) Eis que a leitura das genesíacas palavras me leva à imagem dos céus refletindo sobre aquilo que estão prestes a criar.

E o Protagonista da História torna-se também seu Autor. Escolhe um alter ego de sua imagem, antes mesmo de criar essa imagem. “Deus se decide”. É uma espécie de auto-humilhação. O Autor coloca sua imagem e sua honra naquilo que ainda não criou. E não faz isso igual ao José de Alencar em Iracema, cercando sua obra com cartas explicativas ao leitor. Não! Ele “bota a cara” e assina embaixo, doa em quem doer. Sua imagem e sua honra estão em uma História que ainda nem está no prelo. Veja que o ser humano é um ser tão complicado que cria problemas antes mesmo de ser criado.

Suspeito que somos problema para Deus há muito tempo. E creio que a nossa História tem a participação de seu próprio Autor. Quem escreveu o nosso enredo quis fazer parte da trama de cada um de nós antes mesmo de existirmos. (Sempre fui calvinista neste ponto.) É interessante que o Criador não revela sua identidade antes de criar a humanidade. Só é dada uma palavra de ordem para cada processo criativo. Ele não se identifica. Diz haja isso, haja aquilo, produza isso, produza aquilo. Na hora de nos criar, ele revela a sua identidade; o seu pseudônimo perde a utilidade. Vou chamar isso de “metatragédia”, porque o Autor faz parte da Queda também. Veja que ele sobe e desce. Está tudo lindo, de repente surge o problema.

Leio, e quero ler, de modo significativo, a primeira pessoa do plural. “Façamos”. Veja que coisa. A História da humanidade é escrita no plural, pelo seu próprio escritor. Aliás, acho que não é novidade para ninguém o fato de que a palavra hebraica “Elohim” esteja a quilômetros de distância do singular. Revelada está para mim a pluralidade divina.

Como cristão, vejo isso expressado na Trindade, “Abba” (Pai/Mãe), Filho e Espírito Santo. Aqui cabe uma pergunta para mim mesmo: Se Deus é plural, por que quero ser singular?


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27.8.09

Às favas com Deus

A história de um fracasso. Talvez seja essa a melhor maneira de se referir a uma personagem sagrada mais conhecida pelo que deu errado do que pelo que deu certo em sua vida. Jonas, um nome que sem dúvida não seria precedido por um “São”, caso sua história fosse contada no Novo Testamento.

Mesmo não sendo alguém que podemos classificar como “de sucesso”, não há quem na religião cristã discorde que Deus escolheu aquele “sujeito engolido por um peixe”. Um clichê bíblico já diz que o Senhor não vê como o homem vê. Pois é, ele quis usar Jonas. E ainda bem, porque, como se sabe, com esse missionário às avessas veio não apenas o oráculo, mas também a reação positiva da grande Nínive, que experimentou a epifania do perdão divino.

Cumprir uma missão é quase sinônimo de heroísmo — levante a mão quem nunca se orgulhou em falar de um herói que espalhou a Palavra de Deus em cumprimento a um chamado. Só que o homem cuja biografia virou romance na Bíblia, se é que ele teve endereço aqui na Terra, não voltou para casa com o elixir, após uma longa jornada de dificuldades e tormentas, como acontece com qualquer herói.

Não! Estamos falando de um verdadeiro anti-herói. Um anti-herói que está longe do padrão de perfeição de muitos religiosos. Um anti-herói que, em relação a Deus, age de modo um tanto estranho para o modelo de espiritualidade de hoje: fugindo, aborrecendo-se, irritando-se. Enfim, estamos falando de um ser humano, que, como qualquer um de nós, não é de hoje acumula um histórico de negatividade em sua vida.

Gosto muito da ideia de que salvação tem a ver com saúde. Não porque uma vez salvo, saudável para sempre. Mas porque assim como eu, na minha limitada condição de pessoa, posso ficar doente, carecendo de salvação (significado da palavra saúde), assim também eu, por ser gente, fortuitamente, fujo, me aborreço e me irrito, necessitando, por conseguinte, de saúde assim na terra como nos céus.

Entre doentes, herói não há quem seja. Pelo contrário, nosso bem-estar é completamente fugidio. Presos a uma eterna condição trágica, belamente denominada Queda, estamos todos e todas “mais pra lá do que pra cá”. Se há resgate, esse só pode ser divino mesmo, porque, de nossa parte, não passamos de carne e osso.


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17.11.08

Da salvação

Pois eu não vim julgar o mundo, mas salvar o mundo. (Jo 12,47)

Estamos salvos. Jesus nos assegura esta confiança. Afinal, ele veio aqui unicamente para nos salvar. Quem se sente salvo sempre se sentirá salvo. Não é um dia da vida, mas é eternamente. Nada pode anular esta esperança. Ele, Jesus, veio nos salvar. E nele estávamos salvos, estamos salvos, e estaremos todos os dias salvos.

É lamentável, porém, que o medo esteja aí. Se alguém está com medo, é porque está cego. É porque não quer ver a vida, preferindo fugir da realidade. Pode até querer ser religioso, mas não quer saber de deixar sua vida se transformar de modo que a cegueira do medo seja curada. Por isso, esse mal parece sem cura, sem salvação.

Salvação e cura são sinonímicas. Aliás, a palavra “saúde” vem da palavra latina “salute”, que significa “salvação”. Salvação é uma cura que Deus realiza em nós, dando-nos vida. John Wesley (1703-1791) nos ensina alguma coisa importante sobre isso. Com ele, aprendemos que salvação é a restauração total da imagem deformada de Deus em nós, e sua realização plena é a recuperação de nosso poder negativo de não pecar e nosso poder positivo de amar a Deus sobre todas as coisas.

Negatividade e positividade, pólos humanos sem contato um com o outro, mas que convivem dialeticamente, isto é, um lá e outro cá, um cá e outro lá. Volta em cena a ambigüidade. O que seríamos nós sem ela? A terapia divina respeita o lado ambíguo humano, fugindo da unilateralidade de enfatizar apenas a possibilidade de eu ser bomzinho. Ao contrário de ser perfeito, ser salvo é ser curado dia após dia. A imperfeição não passa de uma outra dentada diária no fruto edêmico. Desculpai-me, senhores, se ninguém vos avisou: nós somos humanos — se ainda lembram de Paulo: “todos pecaram e estão privados da glória de Deus.” (Rm 3,23)

Se salvação não é um processo terapêutico de cura, onde Deus está trabalhando em nós, para quê vou sair da minha casa e ir à igreja aos domingos? Só para ouvir que estou perdido? Pois bem, todos estamos, inclusive vós.

Portanto, assumir a ambigüidade é uma coragem de estar para além de si, para além das chagas sangrentas da humanidade. É se deixar curar, não com remédios patenteados pelas nossas instituições religiosas, mas com a gratuidade da vida — deram-nos a vida, para lembrar quem se esqueceu. (Paulo de novo! O versículo debaixo, senhores — “justificados por sua graça”.) Com isso, nós estamos sendo santificados por esta graça através de uma cura que quem efetua é Deus, através de seu Espírito, não nós, não nosso esforço, não as fórmulas dos nossos sacros boticários.

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20.8.08

Sobre o choro

Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão. (Sl 126,5)


Plantar com lágrimas e colher com alegria. Eis o segredo da vida. Desconfio que o choro faça parte do conjunto das mais elementares necessidades humanas. No entanto, se estamos chorando hoje, é provável que cantaremos amanhã. As nossas lágrimas devem estar regando as sementes de alegria que darão muitos frutos.

Para quem acha que a vida é só sucesso, é só vitória, é só vencer, é só conquistar, digo o óbvio: viver é também chorar. Quero dizer, olhar para trás, aprender com o passado, por mais difícil que este seja. Só assim podemos caminhar.

Aliás, caminhar não é sair de um lugar para outro lugar? Dar um passo para frente e deixar outro passo para trás?

O meu desejo é colher alegria como colhia jambo lá no interior de Minas. Jambo só é bom maduro. Vale a pena esperar. Quando a frutinha amadurece, pode subir no pé e se deliciar. Sem espera esse prazer é impossível.

A Bíblia não promete prosperidade, mas alegria. Não alegria que nos faça esquecer as dificuldades, mas uma alegria madura, por causa do passado, das lembranças dos momentos difíceis, uma alegria talvez plantada com choro e lágrimas.

Não é muito dizer que homem chora também, assim como colhe jambo.

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4.8.08

O jovem está na igreja. E daí?

O Instituto Datafolha divulgou semana passada uma pesquisa sobre os jovens brasileiros com idade entre 16 e 25 anos. Um dado chama a atenção: 39% dos entrevistados declararam participar de movimentos ligados a alguma igreja. Além do mais, oito em cada dez jovens consideram a religião como importante ou muito importante. Ou seja, a fé é um dos principais pilares éticos da juventude no Brasil de hoje.

O que temos feito para que tantos rapazes e moças estejam se lembrando de seu Criador nos dias da sua mocidade? A resposta é simples: Deus está em alta. Somente 1% se assume como ateu. Nota-se também um completo desinteresse da moçada por outras organizações, como partidos políticos, sindicatos ou entidades estudantis.

É preocupante, no entanto, que se esteja perdendo o fervor de se fazer alguma coisa em prol da transformação social. Afinal, trabalhos voluntários ou comunitários interessam a apenas 24% dos jovens entrevistados, assim como organizações não-governamentais (ONG’s), que correspondem a apenas 6% da preferência de quem opinou.

O fato de o jovem estar na igreja deveria significar um novo tempo em prol de uma sociedade mais justa. Foi assim com Jesus. Aos doze anos, ele estava no templo, crescendo “em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens”. (Lc 2,52) Mas sua vida mudou quando ele leu o seguinte versículo do profeta Isaías: “O Espírito Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.” (Lc 4,18-19) O jovem Jesus, daí em diante, iniciou seu ministério entre pobres, cativos, cegos e oprimidos, levando-lhes esperança.

Bom seria se todo jovem pudesse dizer como Jesus que o Espírito do Senhor está sobre ele para fazer tudo o que o Mestre fez. Imaginem se as igrejas estivessem repletas de adolescentes e jovens querendo sair por aí para mudar o mundo, não como jovens que “se cansam e se fatigam”, mas como “os que esperam no Senhor”, que “renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam”. (Is 40,30-31)

É difícil sonhar olhando para trás!

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10.6.08

A ética cristã

Entender a ética cristã a partir de atos de juízo e coerção em nome de leis morais é um caminho perigoso, que leva ao ultraconservadorismo formador de uma consciência fundamentalista dentro das igrejas. Antes, é preciso atenção cada vez maior à simplicidade, à pobreza, à humildade e ao engajamento coletivo, buscando uma sensibilidade por meio da qual se é possível alcançar uma renovada visão ética que alcance a humanidade como um todo, porque visa a dar muito mais que receber. Neste sentido, a fé está para além das pretensas certezas religiosas, de enquadrar o mundo inteiro em um sistema de valores hegemônicos, como se a vida se resumisse a fazer isso ou aquilo. Sabemos que nenhum de nós é capaz de garantir a si mesmo, senão o símbolo maior da Graça divina, que viveu amando e amou vivendo. Somente ele, Jesus, tornou-se um referencial humano por causa da radicalidade ética de seu compromisso com o amor expressa na cruz, onde ele se doou em prol de outros.

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25.4.08

Não responda!

É possível viver os ideais em que acreditamos? Pelo menos alguém respondeu a essa questão afirmativamente. Assim o fez, porque era o próprio ideal encarnado, habitando entre nós. (No princípio era o ideal, e Deus sempre foi ideal — para lembrar que o logos nunca foi desse mundo; Platão que o diga!)

Lendo Ernest Hemingway (1899-1961) aprendi que um ideal pode se transformar em desilusão. O conto “In Another Country” expressa o fim do idealismo de jovens norte-americanos que se apresentaram como voluntários para servir numa guerra que não era sua. No front, ficaria uma das mais importantes contribuições ianques para a democracia, que inspirou aqueles rapazes a lutar: é preciso unir forças em prol da liberdade de todos os povos.

Na prática isso nunca aconteceu. Ao invés de um mundo livre, criou-se um mundo cada vez mais preso à intolerância na relação com o outro, e escravo de seus próprios artifícios beligerantes, que matam, segregam e produzem o mal muito mais do que dão vida, promovem inclusão e fazem o bem.

Qualquer pensador entusiasta dos ideais iluministas dificilmente imaginaria um mundo tão avançado na tecnologia e tão retrógrado nos relacionamentos humanos. O cúmulo dessa situação pôde ser visto no encontro entre os dois homens mais poderosos do planeta política e religiosamente falando. O presidente George W. Bush disse que “toda vida humana é sagrada”, para se juntar ao Vaticano na luta contra a legalização do aborto. No entanto, parece que a vida das mães, que morrem no lugar do bebê, bem como as vidas inocentes ceifadas nas guerras contra o so-called “terrorismo”, passam longe da sacralidade do mandatário. A Sua Santidade Bento XVI engrossou o coro conservador cristão, que faz cruzada contra o avanço da religião muçulmana no mundo, enquanto quis deixar uma boa impressão ao declarar-se “ansioso” para encontrar-se com “todas as comunidades cristãs e representantes de muitas tradições religiosas” dos EUA. Bento e Bush, católicos e protestantes, política e religião: tão parecidos!

Talvez aquilo que a tradição protestante da qual faço parte melhor contribuiu para a humanidade foi a insistência no princípio de separação entre Igreja e Estado. A partir deste princípio, as democracias modernas buscam construir o ideal de um governo laico. Isso quase nunca foi vivido, nem pela política, tampouco pela religião. Aqueles batistas, anglicanos radicais, inspiram pouco, por exemplo, os batistas do Brasil, que tendem a preferir o fundamentalismo conservador, produzido principalmente no ambiente de uma classe média sulista ressentida até hoje por perder a Guerra de Secessão (1861-1865) para o norte progressista.

Nesse reduto de pessoas, onde até um dia desses queimavam outras pessoas de cor de pele diferente da sua, surgiu um homem que se sacrificou para encarnar o ideal de igualdade, liberdade e fraternidade entre todas as pessoas. Martin Luther King, Jr. (1929-1968), um pastor batista que viveu por uma causa para morrer por ela. Não fez de sua religião uma luta política, mas da luta política sua religião.

“Eu tenho um sonho” (I have a dream), é sua mais emblemática frase. Pessoas que sonham sofrem por viver em prol daquilo que lhes incomoda em sono e acordadas. Não respondem perguntas irrespondíveis, porque são transformadas pela profundidade da própria questão. Luther King não respondeu, mas se incomodou com a pergunta, o que resta a todos nós seres humanos fazer. Lá no Calvário, no entanto, teve um que foi capaz de responder, assumindo assim a própria condição de ideal encarnado, ou melhor, respondido. “E vimos sua glória!”

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18.2.08

A vida contagia

A vida em abundância prometida por Jesus é contagiante. Ela não se contenta em ficar num espaço de quatro paredes da instituição A ou B. Ela é para todos e todas, independentemente de seu credo. Ora, se o próprio homem pobre de Nazaré não criou nenhuma religião, nenhuma igreja, sua vida alcança qualquer pessoa que se identifique com a mesma paixão de seus seguidores, aquela mesma paixão que fez alguns homens e mulheres deixarem tudo para dar pão a quem tem fome, dar água a quem tem sede, dar abrigo ao desabrigado, dar roupas aos que não têm o que vestir, visitar os doentes e os presidiários.

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21.1.08

Um Natal fora de época

No último dia 10, o sol da liberdade brilhou para duas mulheres seqüestradas durante mais de cinco anos por forças insurgentes da Colômbia. Uma delas, Consuelo González, essa semana disse: “Minhas filhas não quiseram celebrar o Natal até que eu chegasse”. Hoje, em pleno mês de janeiro, onde a gente está fazendo contas para pagar as dívidas de fim de ano, ninguém está mais preocupado em celebrar o nascimento de Jesus. (“Isso é coisa de dezembro!”, alguém poderia pensar.) Mas quando os sofrimentos de um cativeiro impedem que prisioneiros e seus parentes se alegrem no dia 25 do último mês do ano, pela falta das pessoas queridas, a celebração da chegada daquele menino em Belém não tem data para acontecer.

Esse Natal fora de época pode ter muito mais significado que um Natal comum para aquela senhora de 57 anos, que além de ter ficado viúva durante o cativeiro, foi impedida de ver o casamento de suas duas filhas e o nascimento de sua neta. Ela está agora comemorando a liberdade da qual não pôde desfrutar durante 76 meses. Por isso, Consuelo declarou essas lindas palavras: “Hoje, que estou aqui, na liberdade, penso que valeram a pena todos os esforços que fiz para sobreviver, porque a felicidade hoje é infinita”. Como é bom ver a alegria das pessoas que são libertas de quaisquer que sejam os cativeiros!

É justamente este sentimento de ver as pessoas livres que enchia o coração de Jesus de contentamento. Ele sabe o que falta em cada um de nós para alcançarmos a plena libertação de tudo aquilo que possa estar nos impedindo de sermos livres. Vendo uma mulher encurvada há 18 anos, diz-lhe: “Estás livre de tua enfermidade”. (Lc 13,10-12) Ao se deparar com um surdo-mudo, fala aos seus ouvidos bem baixinho: “Abre-te”. (Mc 7,31-37) Com um cego, ele apenas faz uma pergunta libertadora: “Vês alguma coisa?” (Mc 8,22-25) Para cada pessoa, Jesus tinha uma palavra diferente. Não havia receita de bolo. Cada indivíduo é especial. A liberdade de cada um exige um tratamento diferenciado, uma palavra escolhida e burilada com carinho. E era e é essa a maior missão daquele homem pobre de Nazaré: construir um mundo melhor ajudando as pessoas a serem livres.

Jesus está se alegrando com aquelas famílias colombianas, porque há menos duas mulheres sofrendo injustamente nas mãos de gente cruel neste planeta. Podemos imaginar que como bom amigo que sempre foi dessas filhas de Eva, sua alegria é dobrada. Sentimento semelhante, imagina-se, àquele que teve com aquela mulher a quem vários homens queriam apedrejar por ter transgredido uma lei. Com seu espírito subversivo às regras, por considerar as pessoas mais importantes que um conjunto de mandamentos, ele revela o óbvio, que o nosso telhado é de vidro: “Aquele dentre vós que está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra”. (Jo 8,1-11) Candidatos a se retirarem não faltaram, porque quando nos sentimos iguais, sem diferenciação, nós não nos vemos no direito de tirar a liberdade dos outros.

O Natal fora de época significa a celebração desta liberdade. Que o choro do bebêzinho na manjedoura possa ecoar durante muitos meses ainda!

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1.1.08

2008 com graça

Todos somos dependentes da graça. Pelo menos em uma ocasião, quando recém-chegados a este mundo, constatamos que alguém precisou nos dar a graça de seu cuidado para que estivéssemos vivos hoje. Mesmo que não tenham sido nossos genitores, alguma pessoa cuidou de nós dando-nos vida.

Se há algo que poderíamos fazer no início de cada ano, este algo é agradecer a todas as mulheres e homens que foram benignos para conosco não apenas nos nossos primeiros meses de vida, mas durante os últimos 12 meses que se passou. Benignidade é o mesmo que bondade, amabilidade, benevolência e generosidade. É como se fosse uma palavra que englobasse tudo isso.

Portanto, ser bondoso, amável, benévolo e generoso é expressar graça a alguém. Já que um dia todos fomos crianças indefesas, necessitadas da graça de outrem, por que não vivermos em graça no relacionamento com as pessoas ao nosso redor? Eis a aurora de um novo ano brilhando sobre nós a graça de podermos viver 2008 com graça.

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29.10.07

Kairós e chronos

O movimento nascente de cristãos vivia em dois tempos. Enxergava um tempo favorável, o kairós, o tempo de refrigério, aqui e agora, no tempo de restauração, no chronos. Queria fazer alguma coisa para mudar sua situação para melhor, para algo utópico, desencadeando práticas concretas e transformadoras na sociedade. O absurdo de dizer que o tempo oportuno kairótico, isto é, o tempo da plenitude de sentido, poderia ser vivido no tempo presente, no tempo cronológico, repleto de contradições humanas, fez com que os cristãos agissem no hoje como se o amanhã da humanidade deles dependesse.

Aqueles homens e aquelas mulheres acreditavam que estavam antecipando o Reino de Deus. Promoviam tempos de refrigério (ainda não) dentro dos tempos de restauração (). Sua mensagem contemplava as promessas para o futuro e para o presente, vivendo a dialética do Reino de Deus. Eles e elas levavam, pois, esperança na desesperança, antecipando a chegada de dias melhores, ainda que seus dias fossem dos piores.

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30.7.07

O fim de um mundo

Os olhos das pessoas que há alguns dias atrás estavam dentro de uma aeronave partindo de Porto Alegre para São Paulo se fecharam para sempre. Não haverá mais dia, nem noite, para aqueles homens e aquelas mulheres que tiveram um fim trágico, jamais esperado por algum de nós. O mundo do nascer e do pôr do sol já não há para eles e elas. Findou-se para nunca mais voltar.

Como é possível dar adeus a um mundo sem nunca ter pedido para sair dele? Aliás, ninguém sequer pediu para entrar nele. Quando assustamos, nos percebemos aqui, do jeito que somos, lutando para entender o porquê de um dia termos aberto os olhos, forçados por uma luz. Naquele instante, onde, pela primeira vez, as cordas vocais trabalharam, ocorreu também o fim de um mundo.

Para trás, no entanto, não ficaram família, amigos, realizações, decepções, mas uma eterna nostalgia de um indelével mundo, do qual ninguém se lembra, porém tem saudade sem saber que se tem. Lá, coberto pelo líquido amniótico, esteve cada um de nós, dentro do prazer de viver sem ter consciência de que se vive. Ficou, no útero, aquilo que acreditamos ser a razão de nossa existência: a resposta para a pergunta “de onde eu vim?”.

Frutos do prazer, viemos de um mundo perdido, um paraíso que já não existe mais, um Éden. No nascedouro, éramos sem saber que éramos. Entretanto, outro mundo surgiu quando nossos olhos foram abertos, pois passamos a viver conscientes da vida. Que saudade daquele mundo! Afinal, neste mundo atual, a gente não só sabe que está vivendo, mas sabe também que dele um dia sairá.

Quando isso acontecer, haverá choro por parte dos que aqui ficarem. Como se sabe, dos olhos não se pode esperar outra coisa além de lágrimas quando se perde alguém. Não me esqueço de que, quando criança, orava no silêncio de mim mesmo: “Papai do céu, não deixe que ninguém morra!”

Morrer e nascer são sinônimos de o fim de um mundo. Ao sair do ventre de nossas mães, despedimo-nos de um mundo não retornável. Semelhantemente, ao pararmos de respirar, jazerá um mundo ao qual será impossível voltar. Todos morreremos, tal como todos, um dia, nascemos. Eu, porém, na minha infância, não entendia que uma coisa depende da outra: só se nasce morrendo, porque morre um mundo, nasce outro. Já dizia Eclesiastes que “felizes os que já morreram, mais do que os que ainda vivem”, mas mais feliz é “aquele que ainda não nasceu” (4,2-3). Mesmo assim, coisa muito difícil é aceitar que, quando um mundo chega ao fim, abrem-se os olhos, no nascimento, e fecham-nos, na morte!

Em memória das vítimas do vôo JJ 3054 que se acidentou no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, há 13 dias atrás.

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15.6.07

Pastoral às avessas

Fã infantil do primeiro testamento do conjunto de livros sagrados cristãos, vez ou outra me pego lendo a obra mais pastoral de todas em minha opinião, chamada Eclesiastes. O capítulo 3 deste aporético livro contém uma seqüência de coisas difíceis de se entender, incluindo um eterno adágio: “tudo tem o seu tempo”. Não entendo o chorar, muito menos o rir. Mas lá está escrito que há tempo tanto para aquele como para este. É verdade! Hoje eu me vi no abismo dos dois verbos.

Ao fazer meu primeiro funeral como novel pastor, à tarde, li que há tempo de estar calado, bem como há tempo de falar. Obviamente, o silêncio foi a mensagem. Não queria dizer nada além de uma ausência de discurso. Espera-se, no entanto, que um ministro religioso use a sua língua nestas horas. Usei. Não mais que 5 minutos, sendo um de solene silêncio. Jamais esquecerei daquelas reticências. “Quando as respostas se transformam em perguntas, quando as certezas se transformam em incertezas, quando a alegria se transforma em tristeza, quando o riso se transforma em choro”...

À noite, porém, saboreava uma garfada de strogonoff de carne em uma festa de aniversário de alguém da igreja. Falar era o mais importante. Futebol foi o assunto. Risadas aos montes. Reticente me senti apenas na hora de ir embora. Em boa hora!

Voltando para casa, agorinha, pelas ruas frias e vazias da Tijuca, lembrava-me daquilo que mamãe me disse quando criança: “chore com os que choram, alegre com os que se alegram”. Confesso: continuo sem compreender!

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9.4.07

Uma palavra diz muito

Muita gente observa que nossa língua portuguesa é pobre por ter apenas uma palavra para descrever o amor. Não há diferença entre o que chamamos de amar um cônjuge, amar um parente ou amar um amigo. Tudo é amor. Se, por um lado, isso não nos abre para perceber as complexidades do verbo amar, por outro, isso acaba simplificando tudo em uma só palavra. E a simplicidade fala por si só.

Embora a palavra grega ágape fosse rara na literatura da Grécia antiga, os primeiros cristãos adotaram-na para designar um amor que se diferencia especialmente de eros — “amor de desejo” — e também de filia — “simpatia natural” ou “afeto mútuo”. Portanto, já no início do cristianismo havia uma preocupação em comunicar o que é o amor através de uma só palavra.

Observem os três primeiros versículos de I Coríntios 13. Todos começam marcados principalmente por uma palavra: ainda. O escritor Paulo utiliza este advérbio como recurso para construir orações condicionais que trazem à baila as maiores preocupações do público para o qual ele está falando. Através de maravilhosas cadências, estas orações produziam um efeito dramático no idioma dos ouvintes. Todavia, tudo aquilo que enchia a cabeça daquelas pessoas, por mais surpreendente que fosse, se rendia diante da simplicidade do amor.

O discurso do amor é simples, porque o amor é simples. Se há amor, não nos preocupemos muito com o que dizer, pois o amor fala por nós. A fala é mais agente do que paciente. Ou seja, as nossas ações dão vero testemunho de quem somos. Por isso, não adianta se preocupar com o que fazer e com o que não fazer, pois ainda que façamos tudo o que deveria ser feito, o amor continuará sendo mais importante.

Amar não é obrigatoriedade, mas é espontaneidade. Se for obrigação, já não é amor. Quando Jesus fala sobre o amar a Deus e ao próximo como mandamento, ele está relativizando a própria noção de mandamento. Ou seja, não temos que nos preocupar em como amar, pois a nossa vida já é amar. Amar não é imperativo, é constatativo (sic). Ou vocês amam, ou não amam. A realidade está aí dentro de vocês. O amor já existe aí, na vida, em cujo campo fértil há apenas uma sementinha pronta para crescer e dar muitos frutos. Amor é simples assim, podendo até ser descrito em uma simples palavra. E por ser simples já diz muito.

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4.4.07

Com ou sem chocolate?

O meu desejo, nessa páscoa, é que possamos enxergar para além dos símbolos alheios e olhar para os nossos próprios símbolos através destes símbolos até esdrúxulos, como um ovo adornado. Em outras palavras, vamos falar de chocolate e falar de morte e ressurreição. Vamos falar de morte e ressurreição e falar de chocolate.

A cultura diz chocolate. Nós dizemos morte e ressurreição do grande libertador da humanidade. Mas não é tão fácil assim. Falar jogando palavras ao vento é balela. Quero ver falar com a vida. Isso aí! Morte e ressurreição na vida. Já dizia um sábio cristão: "pregue o evangelho, se necessário use palavras".

Esquecer o chocolate? Não. É preciso transcendê-lo, isto é, passar além do normal, do natural. Partir do chocolate para a morte e a ressurreição. Creia: Jesus faria o mesmo. Ele não trucidaria a cultura. Não! Ele daria sentido à cultura. Isso é santificar: transcender o profano para o sagrado.

Somos gente. Por isso somos imanentes, ou seja, o oposto de transcendente, ou seja, somos chocolates, quer queiramos ou não. Não passamos de uma mera pasta alimentar que se prepara com cacau, açúcar e outras substâncias.

Sei que é difícil olhar para o chocolate e encontrar crucificação e ressurreição. Quanto mais olhar para o Cristo crucificado e ressurreto e encontrar o chocolate. Todavia, é só através dessa mistura, imanência e transcendência, chocolate e cruz, que a gente pode falar de morte e ressurreição na páscoa dos nossos dias. Vamos assumir!

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4.1.07

Lições simples para um 2007 de sucesso

O temor do Senhor é o princípio do conhecimento; mas os insensatos desprezam a sabedoria e a instrução. (Pv 1,7)


INTRODUÇÃO
Nesta transição de final para início de ano, é comum refletirmos sobre os erros e acertos do ano que se passou, visando planejar um futuro ano melhor. Existe uma ansiedade em torno desta avaliação, uma vez que a preocupação não está relacionada ao presente, isto é, ao agora, mas aos 12 meses que estão à porta, como uma espécie de desafio a ser vencido. Ou seja, uma das nossas grandes preocupações iniciais do ano é simplesmente ter consciência de que se está vivendo um novo ano.

Neste ambiente de dúvidas e incertezas, salta aos olhos o desejo de descobrir a fórmula do sucesso, isto é, aquilo que pode afastar-nos dos medos que cercam o dia-a-dia de todos nós, porque todos nós planejamos o futuro, aquilo que pretendemos ser, fazer e realizar. Embora esta seja uma questão pessoal, a sociedade também cobra de cada indivíduo uma postura diante deste futuro, transferindo um peso maior para uma ansiedade que já é pessoal. [Quantos jovens não são perguntados sobre a faculdade que pretendem cursar, a profissão que vão seguir – de preferência uma que lhe renda um bom dinheiro? Quantas pessoas não são questionadas sobre suas decisões sentimentais, se vão casar ou não?, etc.]

Assim, diante do medo do novo, cuja definição aparenta-nos obscura, afinal ninguém sabe o que está por vir, resta-nos assumir a inutilidade de sonhar com um amanhã de sucessos. E ter sucesso é entendido como ser o primeiro, estar sempre à frente, isto é, no topo do pódio, jamais no segundo lugar, passando em cima de tudo para atingir os objetivos e metas estabelecidas em meio à tensão entre o medo do incerto e as pressões pessoais e sociais para se definir no amanhã, e não no hoje. Mas, será que a vida é só vencer? Será que realização é sinônimo de número 1?

Pois bem, pretendemos refletir sobre isso a partir da partícula de um texto, o qual compõe um bloco de textos instrutivos à vida, porém estes não devem ser vistos como regras para se viver, pois a instrução aqui é mais do que uma imposição ou sugestão, mas uma radiografia da pura realidade da vida. Alguém está querendo mostrar como a vida realmente é, doa em quem doer. Esta é a razão destes escritos serem denominados por sapienciais, pois estão relacionados à sabedoria humana frente ao desafio de viver.

Estamos diante de um dos textos mais centrais e decisivos na compreensão da antiga sabedoria hebraica. O motivo dessa importância talvez se deva ao fato de o autor sacro fazer uso de termos encontrados majoritariamente na literatura deste gênero. São termos sempre lembrados ao longo do discurso proverbial.

Antes de analisar cada termo e desenvolver nossa reflexão sobre estes, vamos considerar a intenção que o texto pretende trilhar no universo de Provérbios e tentar acessar os fatores contextuais, cujo pano de fundo ajusta nossa lente a fim de enxergarmos um pouco mais daquilo que enxergamos normalmente.

É possível sentir, no antigo contexto da sabedoria hebraica, uma preocupação em colher frutos da experiência vivida, ou seja, é muito mais do que refletir sobre a vida, mas sim se posicionar diante dos resultados dela. Portanto, enquanto ser que pensa, o homem não vai deixar ser levado pelo momento, mas vai tomar em suas mãos o seu destino para descobrir, em meio às confusões e perigos da vida, a rota certa de um caminho que ele já está seguindo. Saber viver é o descobrir-se dentro deste caminho e buscar no próprio caminho as respostas para as perguntas e indagações que vêm à tona ao longo da vida.

É daí, da vida prática, que vão nascer os provérbios; porque Provérbios querem mostrar que a vida que pergunta é a mesma vida que responde, na medida em que vida prática é o simples ato de respirar, acordar, alimentar e andar, isto é, o simples ato de viver.

Por isso, a preocupação não está em preceitos ou definições religiosas, mas em uma simples e profunda devoção "humana" a Deus, através da vida cotidiana. Aqui vemos um Deus não distante do ser humano e de sua vida, mas um Deus que se revelou, se revela e se revelará nas simples coisas da vida, naquilo em que os olhos humanos insistem em se fecharem para ver.


1. O TEMOR
Analisando no texto, em primeiro lugar, a palavra temor, alcançamos um sentido mais valorizado, por este expressar um sentido mais íntimo e pessoal, isto é, diz respeito ao meu interior, e não exterior. Talvez a melhor maneira de tocar no sentido da palavra temor seja perguntarmos intimamente sobre o significado de Deus para cada um de nós. O que Deus significa para mim?

Só eu e você podemos responder a essa pergunta para nós mesmos e para ninguém mais, por ser esta uma resposta pessoal. Há um risco de cairmos na superficialidade ao definir temor simplesmente como adoração ou reverência, pois adoração é o resultado da nossa vida prática, do nosso cotidiano. Temor aqui não significa medo, mas o reconhecimento profundo de que Deus é Deus.

1.1. O temor do Senhor
A expressão que procede temor é do Senhor, e aqui o que nos resta é calar diante desta sentença, do inefável significado que traz o nome traduzido por Senhor. O silêncio expressa o que caracteriza o resultado de temor, pois a verdadeira adoração é o resultado da nossa vida prática, a qual configura o significado deste ser infinito, quem está além até mesmo das palavras humanas. Assim, temor só é temor quando significa se calar, e o se calar é o se prostrar diante do Senhor para viver a vida que ele nos deu, tal como o pássaro se prostra para viver a vida de pássaro, e não de peixe, tal como a flor se prostra ao ser flor, e não árvore.


2. O PRINCÍPIO
Princípio é o começo, é o início, enfim, é o primeiro passo, por isso é o nosso melhor, as nossas primícias. É o que de melhor nós temos nas nossas experiências de vida, porque é algo que está marcado e nada pode tirar.

2.1. O princípio do conhecimento
O princípio marca, por ser este a base de toda construção, sendo aqui a base de conhecimento, saber, sabedoria. Estes termos indicam o sentido de reconhecimento, de habilidade. Seria a experiência de vida na sua essência, isto é, o resultado, o alcançar. Poderíamos até dizer que este é o resultado de nosso caminho trilhado sabiamente, pois aqui está expresso eu e você lá na frente, no futuro, onde construímos, no passado, o que viveremos lá. O futuro aqui não parece ser uma projeção a se alcançar, mas uma realidade palpável, cuja vivência depende de nós mesmos.


3. OS INSENSATOS
Mas existe uma incógnita, ou seja, um desconhecido ponto determinante que pode ser importante na solução de um problema. É o termo insensato, louco, tolo. É o despreocupar-se com os resultados da vida prática, pois insensatos são aqueles que não querem viver como Deus os fez, querem ser tudo menos seres humanos. Todavia, não pensemos nós que este termo refere-se a terceiros, pois este é um adjetivo substantivado, o que denota um estado de ser ou um diagnóstico que pode acometer a mim e a você. É como se fosse um buraco aberto no caminho da vida, onde sempre há uma possibilidade de cairmos, ou não.

3.1. Os insensatos desprezam a sabedoria
Na qualidade de insensatos desprezamos as pérolas da vida. Uma delas é a sabedoria, que aqui não é somente uma habilidade, mas uma habilidade técnica, isto é, uma habilidade a se adquirir. Diferente do resultado, este é o como chegar lá, pois a voz da vida denuncia que viver não é só visualizar a realidade — essência —, mas buscar interagir com a própria vida — forma —, ou seja, chorar quando as lágrimas vierem, sorrir quando a alegria brotar, ser triste e ser feliz; esta é a dinâmica da vida. Em resumo, a sabedoria é um discernimento crítico, uma capacidade de percebermos profundamente a realidade e as situações que nos levam a orientar a nossa vida.

3.2. Os insensatos desprezam a sabedoria e a instrução
Atrelada à sabedoria está a instrução, disciplina. Aqui está a nossa segunda grande falha como insensatos. A instrução é a correção ou advertência aos nossos erros, porque só se corrige o que está errado. Todos nós erramos, porém o maior problema parece não ser o errar, mas a postura diante dos erros. Instrução não é procurar os erros e acertos, e sim é o processo de se autocriticar, isto é, uma correção que visa à educação. Esta é uma instrução pessoal e não de terceiros. Como insensatos, podemos instruir ao mundo inteiro, mas sempre falhamos em instruir a nós mesmos.


CONCLUSÃO
Por fim, nesta reflexão, poderíamos aprender, com os sentidos destes termos, que olhar para um 2007 de sucesso é olhar primeiramente para o 2007 atual, o qual estamos vivendo, isto é, o hoje, o agora. Aí, descobrimos as lições simples para a vida atual, uma vez que, se o temor do Senhor é o me calar diante daquilo que ele significa para mim, podemos estar certos de que ele nos fez para viver a vida hoje, pois o amanhã só a ele pertence, no amanhã só nos resta calar. Este é o primeiro passo para um ano entregue à realidade em que estamos inseridos, seja qual for, e este é o nosso melhor, pois é o que nos faz sentir o chão em que pisamos, a nossa realidade.

Ainda que em alguns momentos despreocupemos com os resultados da vida, lembremo-nos sempre de que esta incógnita pode ser revertida em uma atenção à vida como ela de fato é, sabendo que a autocrítica é a melhor ferramenta para um crescimento cauteloso e sadio. Pois ter sucesso, muitas vezes, não é só vencer a vida, mas é simplesmente saber vivê-la. E que Deus nos ajude!

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