21.12.09

Na semana do Natal

Na semana do Natal, quero pedir que aqueles que erguem o fuzil atirem balas de esperança, para que elas deixem de ser perdidas e achem algum transeunte desiludido com a vida. Aproveito também para pedir que alguém faça o favor de contribuir para deflagrar a guerra do tráfico de paz. É simples. Basta dizer “sim” a qualquer ato de corrupção do ódio.

A propósito, ontem cantei na Igreja que “Deus está conosco”. Se assim é, então, estamos convidados a quebrar o lugar comum do mal no nosso cotidiano. Como bem fazem os seguintes versos de Bertolt Brecht:

Marchar com tanques e canhões,
lançar aviões ao céu
e cruzadores ao mar
para conquistar um prato de sopa.
Não esperem pelo amanhã
Que em todo o mundo os semelhantes se ajudem hoje
[mesmo,
pois os homens bons
não formam ainda um exército numeroso.
Avante no ataque.
Empunhem suas armas.
Homens se afogam em torno de nós
e ninguém olha para eles!


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27.10.09

Mãos divinas

Será que temos todo esse poder de escolher o lugar onde estamos? Eu não sei. Só posso dizer que, no momento, sinto que estou no melhor e mais difícil lugar do mundo: as mãos divinas. Ali minhas certezas se diluem diante do futuro que só a elas pertence. Ali sou cada vez mais fraco, porque nelas estou impossibilitado de dominar e de “fazer acontecer” qualquer coisa. Ali não sei para onde vou, mas posso perguntar: Quem sabe elas, as mãos, não sabem? Vivo assim na fronteira da esperança, esperando algo que não posso ver. E haja o que houver, sigo e seguirei uma jornada sem volta, cujos destinos, no entanto, não cabe a mim saber.


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16.10.09

Do fogo

Sou levado a acreditar que, em nossa jornada de vida, o lugar do encontro com o divino é sempre marcado com um fogo. Digo: um fogo que é aceso, um fogo que queima, e um fogo que consome.

Acho interessante que antigos filósofos gregos gostassem de refletir sobre os elementos básicos que compõem a natureza. Terra, água, ar e fogo seriam as raízes de tudo o que existe. Logo, estes elementos básicos seriam inalteráveis por serem independentes. Terra, água, ar e fogo se combinariam para trazer vida e se separariam no momento da morte de qualquer ser vivo.

Dialogando com essa ideia, suponho que o fogo que há em Deus comunica com o fogo que há em nós. Trata-se, no entanto, de um encontro violento. Um encontro selvagem. Todos nós sabemos que com fogo não se brinca. O fim do fogo é sempre trágico: sobe com brilho e cai em cinzas. Tudo vira pó, tudo vira terra. A água se estala no fogo. O ar vira fumaça. Nada pode contra as chamas.

Só que uma hora o fogo se vai. Em algum momento chegará o benfazejo alívio. Afinal, se de um lado temos nossas limitações, nossa contingência, nossas queixas; de outro lado, temos algo que insiste em querer superar esse sentimento ruim de separação, reunindo-nos de volta à Fonte do nosso ser.


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17.8.09

Falar é fácil

Falar é produzir discursos. Viver é produzir vida. Muita gente fala, pouca gente vive. Discursos são vazios, são passageiros e duram pouco. A vida, porém, tem nome e endereço. Silencioso, o seu significado sonoriza sentimentos.

Eu sinto que a Poesia se fez vida e habitou entre nós. Não era só discurso. Seus versos não morreram. Sua escrita mora na areia — o vento bateu e levou. Sua morte virou peça de teatro encenada na teofagia das eucaristias. Por isso, Jesus eu conheço em versos, não em discursos.

Posso até imaginar a fronteira entre o falar e o viver na vida de um homem que questionou Jesus sobre o primeiro mandamento. Esta dúvida discursiva o inquietava. E ainda bem que Jesus escuta as dúvidas. Jesus não condena as dúvidas. Jesus responde às dúvidas.

“Amarás”. A resposta de Jesus começa com o verbo “amar”. A lei de Jesus, o mandamento de Jesus, tudo isso começa com o verbo “amar”. Afinal, “aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor”.

Não adianta falar. É preciso amar. E amar é um ato tão autêntico que é necessário que o advérbio “todo” apareça quatro vezes para expressar a intensidade do verbo “amar”. “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças.”

Ou se ama por completo, por inteiro, ou não se ama. O significado de amar é todo abrangente. Envolve todas as dimensões da vida. Coração, alma, entendimento e forças. Porque esta é a lei de Deus. Amar. Este é o mandamento de Deus. Amar.

Agora, deixe eu parar de falar...


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7.1.09

“Isto é o meu corpo” (Jesus de Nazaré)

Quando fui buscar o jornal na minha porta hoje, estava cantando os seguintes versos: “Agora o que mais importa / É renascer na esperança / É renascer, renascer na esperança” (Jaci Maraschin). Tamanha surpresa foi, logo depois, defrontar com a imagem de um corpo de uma menina achada em meio aos escombros da atual guerra entre Israel e Hamas. (Folha de S. Paulo, 07/01/09)

Lembrei-me de quando celebrei o primeiro memorial da Ceia do Senhor (Eucaristia), na minha curtíssima experiência pastoral protestante. Pouco tempo atrás. Era na semana em que a nossa faixa de Gaza carioca pegava fogo. Ali, durante o culto, preguei um sermão sobre memória e esperança, que dizia o seguinte no final:


Quero terminar esta palavra fazendo um apelo à sua memória. Mas não quero lembrar você de nada não. Meu desejo é que você apenas use a sua visão para não se esquecer de algo que vem nos afetando a cada dia, quando acompanhamos os noticiários. Há uma foto que saiu na capa do jornal Folha de S. Paulo, na última quinta-feira (27/06/07). Lá estão, corpo e sangue, representando o resultado de nossa amnésia. Esse corpo e esse sangue poderiam ter outro destino, mas estão ali, clamando ao mundo todo por justiça. Nem sei de quem se trata ali, debaixo daquele pano, mas sei que é alguém fruto da violência que tanto mancha a nossa Cidade Maravilhosa. Esta pessoa certamente nasceu num lugar miserável, onde não havia outra opção a não ser entrar para o crime. Vamos nos calar diante disso?

O corpo e o sangue de Jesus são símbolos de esperança. Mas são também símbolos da memória. Precisamos de memória! Precisamos de memória social! Precisamos lembrar que os hebreus sofreram injustiça, que Jesus sofreu injustiça, mas que muita gente hoje ainda continua sofrendo injustiça aos nossos olhos e nós não fazemos nada além de virar a página do jornal e esperar mais um dia chegar.

A mim e a você Jesus disse “fazei isto em memória de mim” (v. 19), porque ele quer ser lembrado. Ele será lembrado cada vez que lembrarmos dos injustiçados da cidade, do estado, do país e do mundo. Cabe a todos nós vivermos esta esperança cada vez que comermos deste pão e bebermos deste cálice. Lá, no pão, estavam as marcas das injustiças. Lá, no cálice, estavam as marcas do derramamento de sangue, da violência. Dois problemas contra os quais lutávamos ontem, lutamos hoje e lutaremos sempre, com memória e esperança. Que para tanto Deus nos ajude. Amém.



As injustiças continuam. E Jesus ainda quer ser lembrado. Porque esses corpos aí, cariocas ou palestinos, são os corpos daquele que acabou injustiçado na cruz. O que mais importa agora, portanto, é que a esperança renasça em nossa memória.

***

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24.12.08

É festa

Está aqui na minha Bíblia: Jesus nasceu. Maria deu à luz. E é festa. Festa é dia santificado. Na criação, por exemplo, a gente supõe que depois de concluído todo o divino trabalho, a parte mais importante foi a comemoração, pois consta-se que fora exatamente o sétimo dia, o do descanso, o único a receber status de abençoado.

Todo nascimento é sagrado, porque significa que a humanidade não estará em extinção: uma nova mulher ou um novo homem dará seqüência à vida humana na Terra. Como qualquer pessoa portanto, aquele bebê de Nazaré emancipou-se do ventre materno para trazer esperança ao mundo. Isto vale para tudo que respira o ar que da garganta divina proveio. “Tudo que move é sagrado”, já compuseram Beto Guedes e Ronaldo Bastos. Esperar é movimentar. Esperança inclusive significa “esperar com ação” (sperare e antia).

Arrisco então: ter esperança é fazer por esperar. Ora, se toda criação “geme” na esperança de um novo amanhã libertador, como nos lembra S. Paulo (Rm 8,22), por que não haveremos nós de gemer também? Todo dia ouço um pássaro a gemer aqui, uma planta a gemer ali. Querem me dizer: “Geme tu também!” A natureza trata de fazer lá a sua festa. E nós bem que poderíamos imitá-la. Fazer nossa parte, festejando com toda criação, já seria muita coisa.

A festa precisa ser universal. Para todos e todas. Para tudo o que move. De modo que não haja lugar onde falte comemoração. A começar dos lugares mais marginalizados, habitados por seres vivos também criados, também nascidos, também gemendo, mas sem festa.

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7.11.08

Sermão do Mau Ladrão (*)

(*) Inspirado no Sermão do Bom Ladrão, de Padre António Vieira, que está disponível em
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/fs000025pdf.pdf

VI

Eis a nossa esperança: Hodie mecum eris in Paradiso. “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.” Mas o Paraíso começa na cruz. E é só na condição de ladrões que podemos clamar por lembrança de Jesus. Não somos nós quem pede para estar no Paraíso. É ele quem está nos prometendo. Cabe a nós o papel de clamar pela sua lembrança, nas dificuldades do dia-a-dia, sabendo que ele está ali, sofrendo conosco. O seu silêncio é apenas um convite que nos faz para depender mais dele. Porque é dependendo dele que teremos esperança. Esperança que nasce quando lembramos que um dia ele sofreu como nós aqui na terra, todo tipo de sofrimento, por nossa causa. Um dia ele entregou o seu corpo e o seu sangue por amor às nossas vidas.

O Paraíso começa na cruz, porque é na cruz que somos todos iguais, somos todos ladrões; não há ninguém melhor que o outro. Mas cada ladrão representa a nossa humanidade. Como se fossem os nossos dois lados. Eles são a ambigüidade que mora dentro da gente. E Jesus trata a ambos igualmente, porém um precisa do silêncio, o outro ouve que estaria no Paraíso.

Senhor Jesus, o Bom Pastor, que na cruz foste posto ao lado de ladrões para pagar pelo erro do primeiro de todos os ladrões, bem como o de todos nós, eternos pecadores, ensina aos atuais pastores do teu rebanho que, não perseguindo o povo com um moralismo, nem distanciando de sua própria condição de maus ladrões, de tal maneira impeçam o engano da ilusão de “bom ladrão”, alcançando assim a esperança de tua fala: Hodie mecum eris in Paradiso. Amém.

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1.11.08

Sermão do Mau Ladrão (*) — Penultimum

(*) Inspirado no Sermão do Bom Ladrão, de Padre António Vieira, que está disponível em
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/fs000025pdf.pdf

V

É esta palavra “esperança” que caracteriza a fala do segundo ladrão. Ele suplica: Domine memento mei cum veneris in regnum tuum. “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.” (v. 42) Para ele, o sofrimento aqui deixou de ser importante. Ele está pensando na missão divina de trazer vida eterna para uma humanidade moribunda.

Ele não é religioso. Talvez nunca tenha entrado num templo. E ele chama o Mestre de “Jesus”, seu mais simples nome. Não o chama de “Senhor”, ou “Cristo”, como o faz seu colega, mas simplesmente de “Jesus”. Este é um nome vulgar, comum, da época, como se fosse um “Zé Ninguém”. Esse homem, conhecido como “bom ladrão”, tem um senso de justiça muito forte. Reconhece sua própria condição, não fica tentando culpar Deus, ou lhe pedir algum milagre. Não! Sabe que está pagando pelos seus feitos e nutre um temor a Deus. Por isso, não inventa desculpas para o que fez. Assume suas dívidas. Paga por elas. Reconhece-se como mau ladrão.

Uma palavra que esse homem diz que é muito importante para todos nós, que sofremos hoje nas nossas lutas diárias: “Lembra-te de mim.” Ele está clamando por lembrança, por memória. Ele não quer nada, só a lembrança de Jesus. Se Deus se lembrar de nós, já é o suficiente. Não precisamos de mais nada. E é na lembrança de Deus que o outro ladrão também pode ter esperança. Ele vai ouvir Jesus dizer para o seu colega que “hoje” ele estará no Paraíso. Não é amanhã, é hoje. Ser salvo é estar no Paraíso hoje. Não é descer da cruz, como queria aquele ladrão que falou primeiro. Nós temos que aprender isto: ser salvo não é Deus nos livrar dos problemas da vida, mas é ele nos levar para o Paraíso hoje, aqui e agora.

* * *

[Continua]

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24.10.08

(*) Inspirado no Sermão do Bom Ladrão, de Padre António Vieira, que está disponível em
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/fs000025pdf.pdf

IV

Mas diante da cruz a nossa postura se diferencia. E é a respeito disto que quero chamar a sua atenção. Os dois ladrões têm voz diante da cruz, porque ali ninguém está sendo discriminado. Já tem um ditado que diz “O que o berço dá só a tumba tira”. Porque a morte não exclui ninguém, nem rico nem pobre, nem católico nem protestante, todos vamos partir um dia. Não adianta querer levar coisas para a morte, pois lá estaremos de mãos vazias. Como disse Jesus: Nolite thesaurizare vobis thesauros in terra ubi erugo et tinea demolitur ubi fures effodiunt et furantur. “Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem consomem”. (Mt 6,19)

A fala do primeiro ladrão, no entanto, mostra que diante da morte, ainda podemos vir a nos tornar orgulhosos e preocupados com nossos próprios interesses. Si tu es Christus salvum fac temet ipsum et nos. Eis a fala provocante de um dos malfeitores. Aquele homem ao lado de Jesus ainda está preso a seus próprios interesses. Quer ele culpar Deus pela situação na qual se encontra. Veja que ele usa o termo “Cristo” para se dirigir a Jesus. Usando um título religioso para o Mestre, quer apenas pregar um rótulo em Deus.

Como nos parecemos com este ladrão! Os conceitos religiosos que usamos para falar de Deus demonstram familiaridade com a religião, mas dizem muito pouco sobre a fé simples que nutrimos no dia-a-dia. Aquele homem sabia o título mais nobre de Jesus, “Cristo”, que significa o Messias, o Ungido, Aquele que seria o Rei de Israel. Muita gente tem vários nomes para Deus, mas pouco Deus para um nome. Aquele homem quer apenas se livrar de seu sofrimento. E como nós somos assim! Queremos que Deus resolva logo o nosso problema. E se ele não fizer nada, a gente fica indignada.

E eu já ouvi muitos testemunhos onde as pessoas dizem: “Deus, se o senhor é Deus mesmo, resolve este meu problema.” Como somos egoístas! Como queremos que Deus seja o nosso capacho, que ele aja sobrenaturalmente e realize milagres para resolver nossos problemas de saúde, de emprego, et cetera. Não percebemos que ele está aqui conosco, sendo crucificado ao nosso lado. Ele pode não descer da cruz, mas estará lá, morrendo conosco.

Se você adoecer, ele pode não curá-lo, mas estará adoecendo, deitando-se no leito ao seu lado. Se você ficar desempregado, ele pode não conceder o emprego que você tanto deseja, mas estará indo com você quando estiver na agência de trabalho deixando o seu currículo. Se você chorar, ele estará chorando com você. E mesmo que seu sofrimento acabe numa cruz, ele estará sendo crucificado, como foi ao lado daqueles maus ladrões.

É por isso que Jesus não repreende o ladrão que diz estas palavras, que, para nós, soam ofensivas. Jesus simplesmente não está lhe dizendo nada. Ele se cala. Jesus também experimentou o silêncio de Deus, rogando no Getsêmane três vezes: Mi Pater si possibile est transeat a me calix iste verumtamen non sicut ego volo sed sicut tu. “Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres”. (Mt 26,39) O Filho, então, nada ouve do Pai.

Muitas vezes, queremos ouvir uma resposta de Deus no sofrimento e Deus se cala. Ele não fala nada. Quando ele está se calando, estamos sendo convidados a aprender a depender dele. Não há segurança alguma. Não estamos com ele só porque disse alguma coisa, estamos com ele porque nele confiamos. Confiança é esperança, e esperança é o melhor presente que Deus dá para o ser humano. É crer em coisas não vistas, é crer que há algo melhor nos esperando. Quando Deus se cala, nós somos convidados a ter esperança.

* * *

[Continua]

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16.10.08

Sermão do Mau Ladrão (*) — continuação

(*) Inspirado no Sermão do Bom Ladrão, de Padre António Vieira, que está disponível em
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/fs000025pdf.pdf

III

Para que uma verdade tão grave vá assentada sobre fundamentos sólidos bíblicos, sugiro que toda a justiça que julgamos haver no mundo seja vista como impossível. Assim aprendemos de Coélet, o Pregador, cuja sabedoria o identifica com o rei Salomão. Non est enim homo iustus in terra qui faciat bonum et non peccet. “Não existe um homem tão justo sobre a terra que faça o bem sem jamais pecar”. (Ecl 7,20) Ora, se não há um que seja justo o suficiente, ninguém é melhor que ninguém. Todos, homens e mulheres, somos como Adão, condenados à tentação de roubar, de pegar aquilo que não é nosso. Deus coloca querubins vigiando o jardim do Éden, porque assim como Adão roubou da árvore do conhecimento, ele poderia roubar também da árvore da vida. (Gn 3,24) E é justamente isto que fazemos hoje, tentamos encontrar a tal árvore da vida, onde podemos descobrir as respostas para todas as nossas perguntas, o antídoto para todos os nossos males, a cura para todas as nossas doenças, a solução para todos os nossos problemas. Não percebemos que fazendo isto, estamos repetindo o ato adâmico de ter em mãos algo que só a Deus pertence, a vida em abundância.

Por isso, olhar para aquelas duas pessoas ali, ao lado da cruz de Jesus, é olhar para nós mesmos. Não há imagem melhor para descrever a humanidade: um bando de ladrões. Mas uma coisa não podemos perder de vista: Jesus está sendo crucificado no meio de ladrões. Ele identificou-se perfeitamente com os homens. Por que fez isso? Porque Jesus é “Deus conosco”. Diante dele, que unindo toda a humanidade, e nivelando a todos nós, não há quem seja melhor que ninguém. Todos estamos na condição de maus ladrões, dependentes eternamente de sua Graça e misericórdia. Não é possível a máscara religiosa da moral, porque nós ficamos nus na cruz, já que ele se fez nu. Não importa o que fiz de certo ou de errado. Todos acabaremos crucificados ao lado dele, porque é essa a nossa condição, a de ladrões.

* * *

[Continua]

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8.10.08

Sermão do Mau Ladrão (*) — continuação

(*) Inspirado no Sermão do Bom Ladrão, de Padre António Vieira. Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/fs000025pdf.pdf

II

Omnes enim peccaverunt et egent gloriam Dei. “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.” (Rm 3,23) Entre os santos apóstolos, São Paulo é sempre citado para se falar de pecado, porque foi ele o maior de todos os teólogos bíblicos devido à sua condição prévia de perseguidor dos seguidores de Jesus. Perseguindo, não seguiu; seguindo, foi perseguido. Ele não fugiu de sua condição de mau ladrão. Vejam agora que não são poucas as vezes que aqueles que se pretendem cristãos transformam a missão da fé em se tornar guardiões da moral, perseguindo os seguidores. São Pedro insistiu três vezes que não trairia, mas traiu. São Paulo traiu sem insistir que não trairia. Qual a diferença do pecador moralista para o outro pecador? Nenhuma, exceto que o mesmo moralista engana-se a si mesmo, fugindo de pronunciar aquelas malditas palavras: Salvum fac temet ipsum et nos. “Salva-te a ti mesmo e a nós.” Com isso, perseguem, e não seguem.

Se há espaço para alguma moral, ela ocorre depois, não antes. Mesmo assim, nunca se nega a condição de mau ladrão. Neque tu times Deum quod in eadem damnatione es. “Nem sequer temes a Deus, estando na mesma condenação?” (Lc 23,40) Estas palavras do famigerado “bom ladrão” revelam que ele não fugia da condição de mau e não advogou em favor da condição de bom. Hoje o chamamos de “bom ladrão”, porém ele não conviveu com isso, sendo durante toda a vida um mau ladrão tanto como o seu companheiro.

Quer a religião levar as pessoas à condição de bons ladrões antes do reconhecimento de sua condição de maus ladrões. As palavras que padres e pastores deveriam ouvir são essas: “Nem sequer temes a Deus, estando na mesma condenação?” Condenados estão também os párocos, não apenas os fiéis. Por que não pregam esta doutrina para si mesmos ao invés de pregarem a terceiros como fazem moralisticamente? Porque buscam se aproximar do lugar que é só do Salvador. A ele cabe dizer: Hodie mecum eris in Paradiso. “Hoje estarás comigo no Paraíso.” Os pregadores da moral não são capazes de levar nem a si mesmos ao Paraíso, quanto mais enganar o povo com a ilusão do “bom ladrão”.

* * *

[Continua]

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2.10.08

Sermão do Mau Ladrão (*)

(*) Inspirado no Sermão do Bom Ladrão, de Padre António Vieira. Disponível em
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/fs000025pdf.pdf

Si tu es Christus salvum fac temet ipsum et nos. (Lc 23,39)

I

Este sermão, que se prega nos chamados tempos pós-modernos, e não nos tempos modernos ou pré-modernos, está interessado em um tema de todos os tempos, mas que, por ser de todos os tempos, não pertence a tempo algum. E por quê? Porque o texto em que se funda o mesmo sermão não fala de uma característica que é só daquele tempo ou deste tempo, mas que sempre existiu e sempre existirá na história da humanidade. O texto descreve os dois crucificados ao lado da cruz de Jesus como “malfeitores”, como aqueles que cometeram crimes ou delitos condenáveis. Sabemos com todas as letras que eles são criminosos. Alguma coisa fizeram para estar ali na cruz. Durante parte de sua vida, estiveram dedicados à maldita arte de pegar o que não lhes pertencia. Isto é algo apenas dos tempos de Jesus e dos nossos tempos? Não. Porque a atitude desses homens lembra a atitude do primeiro dos homens, Adão. O Senhor Deus disse a Adão: “De toda árvore do jardim podes comer livremente; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dessa não comerás.” (Gn 2,16s) Aquele fruto da árvore do conhecimento era a única coisa que não pertencia a Adão no Éden. E ele foi querer justamente experimentar daquilo que não era seu. Ele roubou da árvore que não lhe pertencia. Qual foi a conseqüência deste roubo? Ele foi expulso do Paraíso. Pagou um preço alto por isso. Adão saiu do Jardim, porque a raça humana, através de sua atitude, provou não ser digna de confiança e predisposta ao mal. Deus tirou Adão do lugar onde furtou para que ele e nós, seus descendentes, não roubássemos novamente daquela árvore que a ninguém pertence senão ao Criador. Qualis terrenus tales et terreni et qualis caelestis tales et caelestes. “Como foi o primeiro homem terreno, tais são também os demais homens terrenos”. (1 Co 15,48) Ou seja, nós somos tão ladrões como Adão, o nosso primeiro pai, foi ladrão. Se Adão roubou, todos nós roubaríamos naquele tempo, roubamos neste tempo, e roubaremos no tempo futuro.

Si tu es Christus salvum fac temet ipsum et nos. Quem está ali a dirigir essas palavras a Jesus? Não somos nós, aqueles que uma vez roubaram, hoje roubam e sempre roubarão no porvir? Esta é a lembrança que devem ter todas as pessoas de todos os tempos, sejam quais forem. Que se lembrem da sua condição de maus ladrões. Este é o assunto a respeito do qual hei de pregar. Peçamos a Graça.

* * *

[Continua]

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30.4.07

Nunca mais serei o mesmo

Já ouvi muitos pregadores, os quais disseram palavras e mais palavras, mas jamais esquecerei de um pastor amigo que resolveu pregar com uma atitude nada conveniente para hoje. Mesmo após alguns dias de uma cirurgia na perna, ele abaixou-se para lavar os pés dos seus ouvintes. Piegas? Sei lá. Só sei que se um dia alguém lavar seus pés, você nunca mais será o mesmo.

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9.4.07

Uma palavra diz muito

Muita gente observa que nossa língua portuguesa é pobre por ter apenas uma palavra para descrever o amor. Não há diferença entre o que chamamos de amar um cônjuge, amar um parente ou amar um amigo. Tudo é amor. Se, por um lado, isso não nos abre para perceber as complexidades do verbo amar, por outro, isso acaba simplificando tudo em uma só palavra. E a simplicidade fala por si só.

Embora a palavra grega ágape fosse rara na literatura da Grécia antiga, os primeiros cristãos adotaram-na para designar um amor que se diferencia especialmente de eros — “amor de desejo” — e também de filia — “simpatia natural” ou “afeto mútuo”. Portanto, já no início do cristianismo havia uma preocupação em comunicar o que é o amor através de uma só palavra.

Observem os três primeiros versículos de I Coríntios 13. Todos começam marcados principalmente por uma palavra: ainda. O escritor Paulo utiliza este advérbio como recurso para construir orações condicionais que trazem à baila as maiores preocupações do público para o qual ele está falando. Através de maravilhosas cadências, estas orações produziam um efeito dramático no idioma dos ouvintes. Todavia, tudo aquilo que enchia a cabeça daquelas pessoas, por mais surpreendente que fosse, se rendia diante da simplicidade do amor.

O discurso do amor é simples, porque o amor é simples. Se há amor, não nos preocupemos muito com o que dizer, pois o amor fala por nós. A fala é mais agente do que paciente. Ou seja, as nossas ações dão vero testemunho de quem somos. Por isso, não adianta se preocupar com o que fazer e com o que não fazer, pois ainda que façamos tudo o que deveria ser feito, o amor continuará sendo mais importante.

Amar não é obrigatoriedade, mas é espontaneidade. Se for obrigação, já não é amor. Quando Jesus fala sobre o amar a Deus e ao próximo como mandamento, ele está relativizando a própria noção de mandamento. Ou seja, não temos que nos preocupar em como amar, pois a nossa vida já é amar. Amar não é imperativo, é constatativo (sic). Ou vocês amam, ou não amam. A realidade está aí dentro de vocês. O amor já existe aí, na vida, em cujo campo fértil há apenas uma sementinha pronta para crescer e dar muitos frutos. Amor é simples assim, podendo até ser descrito em uma simples palavra. E por ser simples já diz muito.

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4.4.07

Com ou sem chocolate?

O meu desejo, nessa páscoa, é que possamos enxergar para além dos símbolos alheios e olhar para os nossos próprios símbolos através destes símbolos até esdrúxulos, como um ovo adornado. Em outras palavras, vamos falar de chocolate e falar de morte e ressurreição. Vamos falar de morte e ressurreição e falar de chocolate.

A cultura diz chocolate. Nós dizemos morte e ressurreição do grande libertador da humanidade. Mas não é tão fácil assim. Falar jogando palavras ao vento é balela. Quero ver falar com a vida. Isso aí! Morte e ressurreição na vida. Já dizia um sábio cristão: "pregue o evangelho, se necessário use palavras".

Esquecer o chocolate? Não. É preciso transcendê-lo, isto é, passar além do normal, do natural. Partir do chocolate para a morte e a ressurreição. Creia: Jesus faria o mesmo. Ele não trucidaria a cultura. Não! Ele daria sentido à cultura. Isso é santificar: transcender o profano para o sagrado.

Somos gente. Por isso somos imanentes, ou seja, o oposto de transcendente, ou seja, somos chocolates, quer queiramos ou não. Não passamos de uma mera pasta alimentar que se prepara com cacau, açúcar e outras substâncias.

Sei que é difícil olhar para o chocolate e encontrar crucificação e ressurreição. Quanto mais olhar para o Cristo crucificado e ressurreto e encontrar o chocolate. Todavia, é só através dessa mistura, imanência e transcendência, chocolate e cruz, que a gente pode falar de morte e ressurreição na páscoa dos nossos dias. Vamos assumir!

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4.1.07

Lições simples para um 2007 de sucesso

O temor do Senhor é o princípio do conhecimento; mas os insensatos desprezam a sabedoria e a instrução. (Pv 1,7)


INTRODUÇÃO
Nesta transição de final para início de ano, é comum refletirmos sobre os erros e acertos do ano que se passou, visando planejar um futuro ano melhor. Existe uma ansiedade em torno desta avaliação, uma vez que a preocupação não está relacionada ao presente, isto é, ao agora, mas aos 12 meses que estão à porta, como uma espécie de desafio a ser vencido. Ou seja, uma das nossas grandes preocupações iniciais do ano é simplesmente ter consciência de que se está vivendo um novo ano.

Neste ambiente de dúvidas e incertezas, salta aos olhos o desejo de descobrir a fórmula do sucesso, isto é, aquilo que pode afastar-nos dos medos que cercam o dia-a-dia de todos nós, porque todos nós planejamos o futuro, aquilo que pretendemos ser, fazer e realizar. Embora esta seja uma questão pessoal, a sociedade também cobra de cada indivíduo uma postura diante deste futuro, transferindo um peso maior para uma ansiedade que já é pessoal. [Quantos jovens não são perguntados sobre a faculdade que pretendem cursar, a profissão que vão seguir – de preferência uma que lhe renda um bom dinheiro? Quantas pessoas não são questionadas sobre suas decisões sentimentais, se vão casar ou não?, etc.]

Assim, diante do medo do novo, cuja definição aparenta-nos obscura, afinal ninguém sabe o que está por vir, resta-nos assumir a inutilidade de sonhar com um amanhã de sucessos. E ter sucesso é entendido como ser o primeiro, estar sempre à frente, isto é, no topo do pódio, jamais no segundo lugar, passando em cima de tudo para atingir os objetivos e metas estabelecidas em meio à tensão entre o medo do incerto e as pressões pessoais e sociais para se definir no amanhã, e não no hoje. Mas, será que a vida é só vencer? Será que realização é sinônimo de número 1?

Pois bem, pretendemos refletir sobre isso a partir da partícula de um texto, o qual compõe um bloco de textos instrutivos à vida, porém estes não devem ser vistos como regras para se viver, pois a instrução aqui é mais do que uma imposição ou sugestão, mas uma radiografia da pura realidade da vida. Alguém está querendo mostrar como a vida realmente é, doa em quem doer. Esta é a razão destes escritos serem denominados por sapienciais, pois estão relacionados à sabedoria humana frente ao desafio de viver.

Estamos diante de um dos textos mais centrais e decisivos na compreensão da antiga sabedoria hebraica. O motivo dessa importância talvez se deva ao fato de o autor sacro fazer uso de termos encontrados majoritariamente na literatura deste gênero. São termos sempre lembrados ao longo do discurso proverbial.

Antes de analisar cada termo e desenvolver nossa reflexão sobre estes, vamos considerar a intenção que o texto pretende trilhar no universo de Provérbios e tentar acessar os fatores contextuais, cujo pano de fundo ajusta nossa lente a fim de enxergarmos um pouco mais daquilo que enxergamos normalmente.

É possível sentir, no antigo contexto da sabedoria hebraica, uma preocupação em colher frutos da experiência vivida, ou seja, é muito mais do que refletir sobre a vida, mas sim se posicionar diante dos resultados dela. Portanto, enquanto ser que pensa, o homem não vai deixar ser levado pelo momento, mas vai tomar em suas mãos o seu destino para descobrir, em meio às confusões e perigos da vida, a rota certa de um caminho que ele já está seguindo. Saber viver é o descobrir-se dentro deste caminho e buscar no próprio caminho as respostas para as perguntas e indagações que vêm à tona ao longo da vida.

É daí, da vida prática, que vão nascer os provérbios; porque Provérbios querem mostrar que a vida que pergunta é a mesma vida que responde, na medida em que vida prática é o simples ato de respirar, acordar, alimentar e andar, isto é, o simples ato de viver.

Por isso, a preocupação não está em preceitos ou definições religiosas, mas em uma simples e profunda devoção "humana" a Deus, através da vida cotidiana. Aqui vemos um Deus não distante do ser humano e de sua vida, mas um Deus que se revelou, se revela e se revelará nas simples coisas da vida, naquilo em que os olhos humanos insistem em se fecharem para ver.


1. O TEMOR
Analisando no texto, em primeiro lugar, a palavra temor, alcançamos um sentido mais valorizado, por este expressar um sentido mais íntimo e pessoal, isto é, diz respeito ao meu interior, e não exterior. Talvez a melhor maneira de tocar no sentido da palavra temor seja perguntarmos intimamente sobre o significado de Deus para cada um de nós. O que Deus significa para mim?

Só eu e você podemos responder a essa pergunta para nós mesmos e para ninguém mais, por ser esta uma resposta pessoal. Há um risco de cairmos na superficialidade ao definir temor simplesmente como adoração ou reverência, pois adoração é o resultado da nossa vida prática, do nosso cotidiano. Temor aqui não significa medo, mas o reconhecimento profundo de que Deus é Deus.

1.1. O temor do Senhor
A expressão que procede temor é do Senhor, e aqui o que nos resta é calar diante desta sentença, do inefável significado que traz o nome traduzido por Senhor. O silêncio expressa o que caracteriza o resultado de temor, pois a verdadeira adoração é o resultado da nossa vida prática, a qual configura o significado deste ser infinito, quem está além até mesmo das palavras humanas. Assim, temor só é temor quando significa se calar, e o se calar é o se prostrar diante do Senhor para viver a vida que ele nos deu, tal como o pássaro se prostra para viver a vida de pássaro, e não de peixe, tal como a flor se prostra ao ser flor, e não árvore.


2. O PRINCÍPIO
Princípio é o começo, é o início, enfim, é o primeiro passo, por isso é o nosso melhor, as nossas primícias. É o que de melhor nós temos nas nossas experiências de vida, porque é algo que está marcado e nada pode tirar.

2.1. O princípio do conhecimento
O princípio marca, por ser este a base de toda construção, sendo aqui a base de conhecimento, saber, sabedoria. Estes termos indicam o sentido de reconhecimento, de habilidade. Seria a experiência de vida na sua essência, isto é, o resultado, o alcançar. Poderíamos até dizer que este é o resultado de nosso caminho trilhado sabiamente, pois aqui está expresso eu e você lá na frente, no futuro, onde construímos, no passado, o que viveremos lá. O futuro aqui não parece ser uma projeção a se alcançar, mas uma realidade palpável, cuja vivência depende de nós mesmos.


3. OS INSENSATOS
Mas existe uma incógnita, ou seja, um desconhecido ponto determinante que pode ser importante na solução de um problema. É o termo insensato, louco, tolo. É o despreocupar-se com os resultados da vida prática, pois insensatos são aqueles que não querem viver como Deus os fez, querem ser tudo menos seres humanos. Todavia, não pensemos nós que este termo refere-se a terceiros, pois este é um adjetivo substantivado, o que denota um estado de ser ou um diagnóstico que pode acometer a mim e a você. É como se fosse um buraco aberto no caminho da vida, onde sempre há uma possibilidade de cairmos, ou não.

3.1. Os insensatos desprezam a sabedoria
Na qualidade de insensatos desprezamos as pérolas da vida. Uma delas é a sabedoria, que aqui não é somente uma habilidade, mas uma habilidade técnica, isto é, uma habilidade a se adquirir. Diferente do resultado, este é o como chegar lá, pois a voz da vida denuncia que viver não é só visualizar a realidade — essência —, mas buscar interagir com a própria vida — forma —, ou seja, chorar quando as lágrimas vierem, sorrir quando a alegria brotar, ser triste e ser feliz; esta é a dinâmica da vida. Em resumo, a sabedoria é um discernimento crítico, uma capacidade de percebermos profundamente a realidade e as situações que nos levam a orientar a nossa vida.

3.2. Os insensatos desprezam a sabedoria e a instrução
Atrelada à sabedoria está a instrução, disciplina. Aqui está a nossa segunda grande falha como insensatos. A instrução é a correção ou advertência aos nossos erros, porque só se corrige o que está errado. Todos nós erramos, porém o maior problema parece não ser o errar, mas a postura diante dos erros. Instrução não é procurar os erros e acertos, e sim é o processo de se autocriticar, isto é, uma correção que visa à educação. Esta é uma instrução pessoal e não de terceiros. Como insensatos, podemos instruir ao mundo inteiro, mas sempre falhamos em instruir a nós mesmos.


CONCLUSÃO
Por fim, nesta reflexão, poderíamos aprender, com os sentidos destes termos, que olhar para um 2007 de sucesso é olhar primeiramente para o 2007 atual, o qual estamos vivendo, isto é, o hoje, o agora. Aí, descobrimos as lições simples para a vida atual, uma vez que, se o temor do Senhor é o me calar diante daquilo que ele significa para mim, podemos estar certos de que ele nos fez para viver a vida hoje, pois o amanhã só a ele pertence, no amanhã só nos resta calar. Este é o primeiro passo para um ano entregue à realidade em que estamos inseridos, seja qual for, e este é o nosso melhor, pois é o que nos faz sentir o chão em que pisamos, a nossa realidade.

Ainda que em alguns momentos despreocupemos com os resultados da vida, lembremo-nos sempre de que esta incógnita pode ser revertida em uma atenção à vida como ela de fato é, sabendo que a autocrítica é a melhor ferramenta para um crescimento cauteloso e sadio. Pois ter sucesso, muitas vezes, não é só vencer a vida, mas é simplesmente saber vivê-la. E que Deus nos ajude!

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