5.10.07

O dia que vi o mar

Uma página do livro da minha vida se chama Copacabana. Este era também o nome do ônibus dentro do qual entrei disposto a chegar a algum lugar que tivesse a tão famosa água salgada. Ao sentir a brisa da maresia, percebi que este era apenas um detalhe a mais que se juntaria aos pés descalços na areia, ao camarão frito, à pele bronzeada e à sombrinha em plena alta temperatura da cidade. “Cidade Maravilhosa!”, exclamei dentro de mim, com a certeza de que o nome Rio, dali em diante, significaria um pouco mais além do estigma de lugar mais perigoso do país. Estava ali, mas o mundo estava logo ali, para além daquele horizonte azul. “Mundo, mundo, vasto mundo”. Drummond certamente não disse isso pensando em Itabira. Itabira? Era apenas “uma fotografia na parede”. Como não poderia deixar de ser? Qualquer Itabira diante daquele mundo de água seria relegada a ficar pendurada na parede da memória.

A Avenida Atlântica, que só conhecia no Banco Imobiliário, agora não passava de um obstáculo de quatro pistas para se chegar à praia. Uma estátua daquele poeta conterrâneo, cravada no calçadão da orla, me fez sentir em casa. Bom seria mesmo que aquele lugar fosse a minha casa. Morar diante daquela imensidão anil, cuja semelhança com o céu da minha terra provocou em mim o esquecimento de que um dia ela fora privada de ter seu próprio mar, seria o sonho de qualquer pessoa com consciência de sua condição humana. Sabe aquele sentimento de que a gente nasce, cresce e morre? Diante do mar isso não existe. A eternidade mora ali, no infinito, no oceano. Naquele lugar, onde se esquece de que a vida está de costas para ali. Deve ser por isso que o cidadão mais ilustre da minha cidade foi morrer de frente para aquelas águas. Ele nunca morreu. Lá está até hoje! Se eu tivesse de escolher um lugar para morrer... Ah, deixa isso pra lá!

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9 Comentário(s):

  • At 6 de outubro de 2007 12:19, Anonymous Edson Marques said…

    Felipe,


    que coincidência: o primeiro mar que eu vi foi também Copacabana.

    Eu já tinha quinze anos. E era um sonho do menino caipira lá do sul do Paraná...

    Sei que vou morrer em Copacabana. Por isso, nunca mais eu volto lá... rs!

    Abraços, flores, estrelas..

     
  • At 6 de outubro de 2007 12:21, Blogger Alysson Amorim said…

    Meu dileto Amigo,

    Nós, mineiros, fomos privados do mar a beijar nossas vastas terras, mas por isso mesmo, depois de conhecê-lo, uma vez que seja, usamos nossa criatividade para trazê-lo conosco: fingimos ouvir seu som quebrado nas conchas que furtamos; aquela linha do "vasto mundo" não nos impede de repetir depois, entre montanhas e lagoas, cobertos de nostalgia e com uma ponta de inveja, que "mais vasto é meu coração." Ou então:

    "Eu não vi o mar.
    Não sei se o mar é bonito.
    Não sei se ele é bravo.
    O mar não me importa.

    Eu vi a lagoa.
    A lagoa, sim.
    A lagoa é grande
    e calma também.

    Na chuva de cores
    da tarde que explode,
    a lagoa brilha.
    A lagoa se pinta
    de todas as cores.
    Eu não vi o mar.
    Eu vi a lagoa..."

    Sabemos muito bem o que significa a nostalgia do Grande Outro de Horkheimer.

    Drummond não suportou. Deixou de lado a nostalgia, a inveja, e se afogou no mar. Se afogou no Grande Outro. "Não, meu coração não é maior que o mundo, é muito menor", confessou depois.

    "Carlos, sossegue, o amor (...) Não se mate, oh não se mate."

    Se matou para jamais morrer, seu conterrâneo. Quanto a você, "Se eu tivesse de escolher um lugar para morrer..."

    Um bom exemplo você já tem.

    Um forte abraço.

    E.T: Amigo, obrigado pela informação sobre as bolsas do STBSB. Uma ótima notícia! Vou fazer minha inscrição.

     
  • At 6 de outubro de 2007 17:54, Blogger Janete Cardoso said…

    Que coisa linda esse seu post!
    Acho que meus dias entre as montanhas estão contados... ando sentindo saudades demais da terra onde nasci... e se eu tivesse de escolher um lugar para morrer... Ah, deixa isso pra lá!
    beijos

     
  • At 7 de outubro de 2007 12:12, Anonymous Carol said…

    Oi Felipe, tudo ok?
    Obrigada pelo comentário... enfim... teu blog é otimo... vou visitar mais vezes!!!
    Deus abençoe

     
  • At 7 de outubro de 2007 17:22, Blogger elsa nyny said…

    Querido Felipinho!!
    Amei este seu texto!!!
    "Sabe aquele sentimento de que a gente nasce, cresce e morre? Diante do mar isso não existe. A eternidade mora ali, no infinito, no oceano. " È isso mesmo! Eu sinto exactamente o mesmo!

    Entretanto hoje o Eu estou Aki, está celebrando o seu 1º aniversário! Tás convidadooooo!!

    Beijinhos!!!

     
  • At 7 de outubro de 2007 19:20, Blogger Tamara said…

    Que saudade do mar, Fanuel!

    O mar é sagrado para mim, é onde realizo os meus mergulhos mais profundos.

    .....
    BELÍSSIMO texto!

    B-joletas

     
  • At 9 de outubro de 2007 11:03, Blogger Pablo Ramada said…

    Eu já joguei muito Banco imobiliário e ainda não conheço Copacabana, mas conheci o mar do Caribe e moro no litoral, sei bem o que é o mar e sua beleza. Me falta escrever como fizeste.

    Tem um post que queria a tua opinião, vai lá depois, abraços!

     
  • At 11 de outubro de 2007 01:36, Blogger Cleber Baleeiro said…

    Quase chorei. Não só porque choro facil. Sou um perambulante. Em cada parada sinto mais ou menos isso também. Na praia, no sertão, nas comunidades quilombolas e agora na terra da garoa. Acho que peguei a maldição de Patativa do Assaré: "Quem deixa a terra natal em outro canto não para".

    Quando caminhei pela primeira vez pela areia da praia de boa viajem (não foi minha primeira praia) senti saudade de casa, mas, ao mesmo tempo que minha casa era como um grão daquela areia.

    Um abraço!

     
  • At 11 de outubro de 2007 18:44, Blogger Marlene Maravilha said…

    Querido amigo, lindo post, autentico. Mas vamos deixar de falar em mar?? Eu nasci em Florianópolis e moro no litoral Paulista, exatamente duas quadras de duas lindas praias, harmoniozamente lindas pela natureza! E estou na Alemanha!!frio e sem praia! Sigo dando gracas aguardando janeiro! rsrsrs
    beijos

     

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