14.11.07

A monja

Todos a esperavam. Queríamos conhecer aquela senhora que tem aparecido na televisão vestida de uma indumentária pouco comum aos brasileiros. Ela chega à sala, acabando com a ansiedade de todos e todas. O gesto das duas mãos juntas e da cabeça abaixada ao mesmo tempo demonstra saudação. Quanta cortesia! Demorou quase nada para ouvir a sua voz, tão doce e tão firme. Após uma pequena meditação — pés no chão, ombros retos, respiração profunda uma vez, olhos abertos concentrados em uma direção, dentes e lábios tocando levemente um no outro, e as mãos (ah, as mãos!), a mão direita deveria estar embaixo da mão esquerda, encostando-se, ambas, ao abdômen, “como se segurássemos uma folha de seda”, orienta ela —, a monja iniciou a sua aula.

Que aula! A etimologia desta palavra “aula” remonta o sentido, tanto no latim como no grego, de “pátio de uma casa”. Ou seja, tem mais a ver com um espaço do que com um evento. A aula da monja foi assim, um espaço comum — de uma universidade — que se tornou sagrado. Ela falou como se estivesse num pátio de uma casa, preocupada apenas com o espaço de abertura para o diálogo no qual nos encontrávamos. Uma conversação simples, cheia de ternura e sinceridade. Adepta da religião zen-budista, em momento algum ela se mostrou mais iluminada que qualquer um ali presente. Pelo contrário, revelou suas crises — como todos nós as temos —, crises essas, é preciso dizer, ocorridas tanto na sua atual religião, como na sua religião de origem — o catolicismo. Não foi difícil se identificar com essa mulher.

Tantas eram as perguntas que a identificação sobrepôs à curiosidade. Acreditem. Logo após a aula, fomos, alunos e alunas, almoçar com a monja. Lá a comida teve gosto de inesquecível. Seu sorriso e seu olhar profundo são dignos de memória, principalmente por abrirem a janela de nossa mente para o encontro com uma alteridade, tão diferente da nossa. Como se as eternas diferenciações entre ocidente — éramos todos protestantes e católicos — e oriente estivessem sendo diluídas num simples e profundo bate-papo, que acabara em banquete numa grande mesa, com cadeiras do mesmo tamanho. Oxalá os encontros entre as religiões fossem assim, qual seja, terminassem em comida! Esse ritual sagrado de se alimentar juntos é uma das mais antigas tradições da humanidade. A monja comeu conosco, nós comemos com a monja. Como cristão, guardarei a lembrança deste espaço aberto, que possa assim se manter para que seja sempre sagrado!

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