8.10.08

Sermão do Mau Ladrão (*) — continuação

(*) Inspirado no Sermão do Bom Ladrão, de Padre António Vieira. Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/fs000025pdf.pdf

II

Omnes enim peccaverunt et egent gloriam Dei. “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus.” (Rm 3,23) Entre os santos apóstolos, São Paulo é sempre citado para se falar de pecado, porque foi ele o maior de todos os teólogos bíblicos devido à sua condição prévia de perseguidor dos seguidores de Jesus. Perseguindo, não seguiu; seguindo, foi perseguido. Ele não fugiu de sua condição de mau ladrão. Vejam agora que não são poucas as vezes que aqueles que se pretendem cristãos transformam a missão da fé em se tornar guardiões da moral, perseguindo os seguidores. São Pedro insistiu três vezes que não trairia, mas traiu. São Paulo traiu sem insistir que não trairia. Qual a diferença do pecador moralista para o outro pecador? Nenhuma, exceto que o mesmo moralista engana-se a si mesmo, fugindo de pronunciar aquelas malditas palavras: Salvum fac temet ipsum et nos. “Salva-te a ti mesmo e a nós.” Com isso, perseguem, e não seguem.

Se há espaço para alguma moral, ela ocorre depois, não antes. Mesmo assim, nunca se nega a condição de mau ladrão. Neque tu times Deum quod in eadem damnatione es. “Nem sequer temes a Deus, estando na mesma condenação?” (Lc 23,40) Estas palavras do famigerado “bom ladrão” revelam que ele não fugia da condição de mau e não advogou em favor da condição de bom. Hoje o chamamos de “bom ladrão”, porém ele não conviveu com isso, sendo durante toda a vida um mau ladrão tanto como o seu companheiro.

Quer a religião levar as pessoas à condição de bons ladrões antes do reconhecimento de sua condição de maus ladrões. As palavras que padres e pastores deveriam ouvir são essas: “Nem sequer temes a Deus, estando na mesma condenação?” Condenados estão também os párocos, não apenas os fiéis. Por que não pregam esta doutrina para si mesmos ao invés de pregarem a terceiros como fazem moralisticamente? Porque buscam se aproximar do lugar que é só do Salvador. A ele cabe dizer: Hodie mecum eris in Paradiso. “Hoje estarás comigo no Paraíso.” Os pregadores da moral não são capazes de levar nem a si mesmos ao Paraíso, quanto mais enganar o povo com a ilusão do “bom ladrão”.

* * *

[Continua]

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8 Comentário(s):

  • At 8 de outubro de 2008 13:36, Blogger Roger said…

    Estou gostando,

    não vou baixar o texto em pdf, pois gosto dessas doses homeopáticas.

    Abração, Felipe,

    de um outro mau ladrão,

    Rogério

     
  • At 8 de outubro de 2008 14:22, Blogger Rubinho Osório said…

    É...
    Melhor eu parar de pregar aos outros e começar a pregar pra mim mesmo.
    Viu, Rubinho?! Nem sequer temes a Deus, estando na mesma condenação!!!

     
  • At 9 de outubro de 2008 15:47, Blogger Juber Donizete Gonçalves said…

    Felipe,

    É por isso, que Paulo ao aconselhar Timóteo, disse fazendo isso, ele salvaria não somente a si mesmo, mas também aos seus ouvintes.

     
  • At 10 de outubro de 2008 06:48, Blogger Janete Cardoso said…

    O que, não só transformou um dos dois ladrões em "bom" ladrão, mas também mudou o destino dele, foi o RECONHECIMENTO da sua condição, no mais somos todos iguais, em tudinho. Pra ser bom no porvir, temos que saber que somos maus por aqui...

    beijo, amigo.

     
  • At 10 de outubro de 2008 20:01, Blogger Mentoria Espiritual said…

    Olá Felipe...
    Esse negócio de querer ordenar a vida dos outros é complicado. Simplesmente não funciona! "Bom ladrão"; "Igreja ruim"; "Prostitutas piedosas"; "Pastores ateus"... só Deus pra entender tanta ambigüidade... Obrigado pela visita e por seu comentário! Um grande abraço!

     
  • At 12 de outubro de 2008 22:59, Blogger Tamara said…

    Soltei sonoros "Mmm...!" em cada final de frase.

    E finalizo com mais "Mmm...!".

    B-joletas verde esmeralda, querido

     
  • At 13 de outubro de 2008 10:50, Blogger Bia said…

    Estou gostando...

     
  • At 13 de outubro de 2008 17:21, Blogger Alysson Amorim said…

    Tudo começa nessa diferenciação quase infantil entre o bom e o mal. Cabe a religião garantir a alguns, por pertencimento a um grupo, a condição de bons; e a outros, por não-pertencimento, a condição de maus. Salvar os maus consiste em trazê-los para o caixote dos bons. Ali a consciência já está pacificada e estamos finalmente salvos por nós mesmos do perigo de se reconhecer como mau ladrão.

    Um abraço.

     

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