1.6.08

Primeiramente, João

Chamam-me João, só que, a essa altura, o nome não tem importância alguma. Os pés estão grudados no chão. Não dá para levantar o calcanhar. A canela, dura, sustenta os dez quilos que parecem ter cada um dos meus joelhos. Sentindo os braços soltos, resigno-me a levar as mãos aos olhos para espremê-las contra a face, e, após um suspiro capaz de retrair toda aquela parte da cintura ao pescoço, dizer: “Eu só quero não ficar parado.” Ainda não consigo entender por que a cabeça está inchada. Já perguntei a mim mesmo, várias vezes, se o problema não está na sustentação do crânio. A resposta é sempre dúbia e incerta. “Ora, a causa é aquilo que sai, não que entra!”, exclamo após concluir que antes de falar a gente alimenta o corpo. Lembrei então dos livros que comi antes de ser a voz. De sagradas letras não me esquecerei jamais. O ar aqui no deserto me derrete por dentro e por fora, mas a digestão dos rolos proféticos insiste em delongar. Grito debaixo do sol, com o corpo petrificado, porque Isaías tem sido a minha refeição. Nunca sei se quem diz sou eu ou ele. Ontem tive certeza que aquele oráculo me mandou seguir adiante, quando os meus tímpanos ouviram as seguintes palavras: “Voz gritante, construa estradas para alguém passar!” Nesse exato momento, vi águas cristalinas, que, escorridas em meu corpo, molhavam pessoas que neste mundo antes não conheci. De mim saía uma nascente que formava um riacho a perder de vista em todo o horizonte seco. Lá estava tudo o que busco, o caminho para me direcionar nesta terra-de-ninguém, capaz de dar sentido a tudo isso. Porém, o passo não foi dado. Deve ser porque meu nome é João.

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3.5.08

Via dolorosa de uma mãe

45 graus. O nome de Deus é Redentor. Da janela, porém, só se vê braços abertos. Lá não dá para chegar sequer para fazer uma prece. É só para turista tirar fotos. Subir mais um morro? Não. Aqui embaixo já tem morro demais, se bem que muito diferente do Corcovado, onde a gente sobe de trenzinho e escada rolante.

Lá está ela, como todos os dias, chegando do trabalho pesado de levantar às 5 da manhã e passar o dia inteiro fora vendendo balas e doces na Central do Brasil. Dizem que toda mãe se parece com a virgem Maria, mas esta é o próprio Cristo crucificado. Duvidam? Peçam para apalpar-lhe as mãos e os pés. Verão as marcas dos pregos, verdadeiras crostas de calos. Só não falem nada de Deus, porque ele parece ter abandonado essa gente cuja voz não cansa de clamar “Eli, Eli, lama sabactani”.

De pele negra, esta mãe conhece bem o seu caminho até o Calvário. Ao chegar à favela, é preciso verificar se os traficantes não estão trocando tiros com a polícia, porque na semana passada, ela visitara uma amiga em coma, vítima de uma bala perdida. As chibatadas dos soldados romanos nem chegavam perto de um tiro de fuzil. Esse é para matar. Se pegar, já era. Fim de semana o caveirão costuma subir o morro com vários fuzis. É um carro-forte blindado da polícia que vai atirando para todos os lados. Inteligência burra. Vez ou outra se vê crianças sendo mortas por esta barbárie. Aquele coração materno sabe bem o que é perder um filho. Toda vez chora quando olha para a foto de Preto, seu primogênito que sonhava em ser advogado. Era sexta-feira quando foram buscá-lo, acusando-o de ter aberto o bico. É! A polícia descobriu uma boca de fumo que rendia muito dinheiro ao tráfico de drogas. Alguém fez questão de passar o mapa da localidade. Foram pedir desculpas para a mãe um dia desses, pois descobriram que apagaram o cara errado. “Pô tia, o Preto era igual ao X9 que nos ferrou!”, diziam os dois rapazes de cabelos pintados com água oxigenada. Ela, sem força alguma, quis gritar, mas não pôde. Não fora capaz nem de enterrar o filho, já que ele morrera queimado em meio a pneus.

À noite, na hora de dormir, ela lembra de dar um beijo em Gabriela, um anjo que veio do céu para consolá-la. Depois que seu marido morreu, também assassinado, só que dessa vez por causa de uma dívida, ela ficaria sozinha não fosse a barriga que estava crescendo já no início do segundo mês de gravidez. O aborto seria uma solução viável para uma jovem de 30 anos, mas ela não tinha dinheiro para isso. Nesse dia, ela havia ido a uma igreja a convite da vizinha que vivia dizendo: “você tá precisando de Deus pra te proteger”. Na favela não tem padre, como no Nordeste, sua terra natal. Restou-lhe procurar “os crente”. Estes têm aos mil. Vivem querendo expulsar demônio do povo. Não têm medo dos traficantes, que de vez em quando até aparecem por lá para pedir oração ao pastor. Nada muda, mas ela se sentiu aliviada para enfrentar a dura realidade de uma vida cada vez mais difícil.

O dinheiro está em falta. 100 reais é o que tem da semana toda. Já contou e recontou as notas de um e as moedinhas, que guarda no cofrinho. Queria tanto colocar Gabriela na creche, mas vai ter de continuar deixando-a com a vizinha que cobra 20 reais por mês. As lágrimas caem em cima do mingau de fubá, única refeição que pode fazer com o que tem. Seu choro não apaga as marcas do seu sofrimento. Ela sabe que amanhã tudo começa novamente. Ser mãe, no seu caso, é subir o Gólgota com a cruz, e descer com o madeiro nas costas. A via dolorosa de lembrar sua condição materna será a mesma, ida e volta, todos os dias, não apenas no segundo domingo de maio.

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29.12.07

Pós-Natal

O último pedaço de panetone é compartilhado com as crianças। Aquela cesta fez milagre. Foi um presente da patroa, que, após a faxina, resolveu fazer um agrado para a pobre mãe. Pouca coisa havia ali. Só o suficiente para comer diferente no Natal. A caixa de chocolate garantiu a breve festa da criançada. O peru assado trouxe um gosto diferente do frango de domingo. As nozes e as frutas exóticas, embora não parecessem interessantes ao paladar dos filhos, serviram de petisco na hora do drinque. Satisfeito, o pai já tinha se esquecido do gosto do vinho. (Além da cachaça de cada dia depois do trabalho, ele, às vezes, experimentava uma dose de catuaba no boteco.) Sua esposa preferiu refrigerante, mas não resistiu a uma taça. O bastante para dizer “Que delícia!”. De relance, lembrou das canções ouvidas horas atrás na igreja. “Natal, Natal, é-nos nascido o rei divinal!”, cantou na memória, arremedando um coro. Não lia muito a Bíblia, mas sabia que Jesus nasceu na manjedoura, ao lado de bois e vacas, e que três magos o visitaram, seguindo uma estrela. Do jeito que estava no presépio. “Mamãe, Jesus era pobre?”, pergunta-lhe seu filho mais velho, de doze anos. Insegura, a resposta foi afirmativa. “Passou da hora de dormir. Pra cama!”, decreta a genitora. Naquela noite, tudo foi diferente. Mas, agora, era aquele último pedaço de panetone que tanto incomodava. À seguinte advertência materna, as crianças resolvem obedecer: “Coma logo, porque amanhã será pão dormido!”

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19.12.07

A origem da miséria

Conta-se que há muitos anos atrás morava em terras lusitanas uma senhora chamada Miséria. Ela era muito pobre e tinha apenas alguns pães dormidos para se alimentar. Tudo seria diferente caso ela pudesse desfrutar de um tesouro que tinha em frente à sua casa. Aquela figueira era seu maior objeto de desejo. Aguardava ansiosa para apanhar pelo menos um de seus frutos. Tamanha era a frustração quando via os meninos do bairro se deliciando daqueles seus figos. Jamais conseguiu a graça de poder comer um sequer.

Certo dia passou pela porta de sua casa um velho senhor fatigado de uma longa viagem, a quem recebeu com bastante esmero. (Dona Miséria era sozinha e sentia falta de alguém para conversar. Por causa de seu jeito amuado, seus vizinhos pouco lhe davam atenção. Mas ela não tinha raiva de ninguém, exceto um leve ressentimento com a meninada do bairro que insistia em não saciar sua vontade por aquela suculenta e carnuda fruta.) Com o viajante ela dividiu seus pães. Nunca se sentiu tão bem como agora. Ele era como ela, faminto e sem ninguém. Chegou o momento de partir. Ele a surpreende dizendo: “Pede o que quiseres e terás”. Ela não titubeia: “Quero que qualquer pessoa que subir na minha figueira não consiga descer sem a minha ordem”. Sem entender bem, o andarilho lhe concede essa petição, despedindo-se de sua anfitriã. (Desnecessário dizer que, à primeira chance que teve, Dona Miséria acabou com a festa dos garotos, admoestando-os a não subirem mais em sua árvore, porque jamais pisariam no chão novamente.)

Numa fria noite, bate-lhe na porta uma senhora toda vestida de preto cuja face era inidentificável. “Quem és tu?”, pergunta assustada após abrir a porta. Sem nada ouvir por alguns segundos, sua perna bambeava e sua respiração falhava. “A Morte”, respondeu a sinistra visitante. Feito o sinal da cruz três vezes, Dona Miséria, implora: “Deixa-me viver mais um ano, faz favor, ou um mês, ou um dia, pois?”. A Morte reage em brasileiro: “Neca!”. Dona Miséria, então, suplica seu direito a um último pedido: “Dona Morte, antes de morrer, queria tanto saciar o gosto do rebento da planta cujas folhas Adão vestiu sua nudez. Tenho sido impedida, por inúmeras circunstâncias de experimentar esses figos à frente de minha casa. Colherias um para mim?”. Como até a Morte tem seu lado bondoso, ela subiu na árvore, porém, como supõem, não desceu. “De maneira alguma descerás”, declara veementemente Dona Miséria.

Passados muitos dias, a Terra se enchera de gente. Ninguém morria. O caos era geral. A fome se agravara. A Morte chama sua carrasca à responsabilidade: “Se eu não descer, o mundo vai implodir; preciso fazer meu trabalho”. Muito experta, Dona Miséria concorda, desde que jamais receba essa incômoda visita em sua casa novamente. Sem escolha, a Morte aceita. E é por isso que a miséria anda solta até hoje.

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