7.6.09

A impossibilidade da transgressão

No romance Wuthering Heights (ou Morro dos Ventos Uivantes), a autora inglesa Emily Brontë pinta as personagens Heathcliff e Catherine não do modo convencional para uma sociedade da sua época, como a sociedade vitoriana, marcada por uma rígida moral — muito influenciada pelas igrejas evangélicas, aliás. Ao contrário, Heathcliff e Chatherine são personagens transgressivas, sobretudo porque fazem aquilo que não é esperado de pessoas como eles. Desempenham, assim, o papel do Outro no ambiente onde estão, já que a condição de alteridade é exatamente uma condição de diferença. Suas atitudes no romance são decisivas para criar problemas na suposta atmosfera de harmonia na qual vivem.

Desde sua infância, Heathcliff é um estranho em um lugar onde estranhos não são bem-vindos. Adotado, ao entrar na família Earnshaw, ele tem problemas com Hindley, que vai desprezá-lo por causa da preferência do pai para com o pobre Heathcliff que fora trazido das ruas de Liverpool. Contudo, Heathcliff não tem identidade, porque ele não tem origem. Até mesmo seu nome não pertence a ele — vem de um filho morto da família que o adotou. Além disso, ele é fisicamente diferente das pessoas ao seu redor — ele era “escuro como se tivesse vindo do demônio”. “Satanás”, “demônio” e, mais tarde, “vampiro” são palavras que a narradora Nelly, empregada da família, usa para expressar como ele é visto.

Quanto mais Heathcliff é rejeitado mais ele quer se vingar daqueles que o fazem sofrer. Ele desaparece por um tempo e volta muito poderoso e rico. Desse modo, muda sua posição da marginalidade para a centralidade. Pouco a pouco, ele obtém poder para perseguir aquilo que mais ambiciona: Catherine.

No entanto, a ambição de Catherine se difere da ambição de Heathcliff. Ela é atraída pela ideia de ser uma lady como esposa de Edgar Linton, apesar do amor eterno que sente por Heathcliff, a quem quer proteger com essa atitude. Só que esse triângulo amoroso não funciona. Tanto Linton como Heathcliff a forçam a decidir entre um deles. Ela não decide — sua ambição não pode ser alcançada. Ela morre com tal frustração.

Para Heathcliff, este não é o fim. Ele convence o/a leitor/a de que seu amor por Cathy é possível até mesmo após a morte. Ele leva esta ideia tão a sério que quer ser enterrado junto com o corpo dela.

Esta história, portanto, desafia a sociedade vitoriana. Personagens marginais, tais como um estranho e uma mulher, agem em lugares onde não deveriam agir. Esta é uma das maiores importâncias do romance de Brontë — sua obra estava à frente de seu próprio tempo. De fato, Wuthering Heights era uma exceção até mesmo para a literatura daquele momento. Não custa nada lembrar que, de certa maneira, temos aqui uma tragédia, e tragédia significa impossibilidade. Ora, se com Aristóteles aprendemos que a tragédia imita “homens superiores”, por que não dizer que as personagens de Brontë se encontram em um nível mais elevado?


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3 Comentário(s):

  • At 7 de junho de 2009 18:30, Blogger Cleinton Gael said…

    Este comentário foi removido pelo autor.

     
  • At 7 de junho de 2009 18:31, Blogger Cleinton Gael said…

    Sim, concordo, e amo as tragédias!
    Quanto mais trágica, melhor.
    No mais, acho que é verdade que personagens transgressivas, sobretudo porque fazem aquilo que não é esperado de pessoas como elas, devam ser mesmo coisas de estados superiores; coisa trágica, no sentido mais stricto. Belo texto, amigo. Ainda não li esse romance, mas já está entrando na lista. abraço grande.

    liberdade, beleza e Graça...
    http://cleintongael.blogspot.com

     
  • At 20 de junho de 2009 12:11, Blogger André von Held Soares said…

    De tempos quis ler este livro.
    Mais um motivo, encontro aqui.
    E bom ver que és blogueiro, hehe.
    Um abraço,
    André

     

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