12.12.07

O neoliberalismo e a religião

O neoliberalismo faz com que as pessoas acreditem na lógica capitalista como a solução para seus problemas. Afinal, quem hoje não quer prosperar na vida? O problema está quando a religião se alinha completamente com este modelo econômico, promovendo apelos emocionais ao consumo privado de bens religiosos e promessas mágicas de melhoria na qualidade de vida material. Além disso, o crescente profissionalismo pastoral reflete um estilo de igreja voltada para o crescimento numérico, transformando o líder espiritual em um gerente que vive de resultados. A igreja acaba perdendo sua dimensão comunitária, ao enfatizar a importância de vivência da fé de maneira individualista, onde o fiel é intimado a adotar modos de vida padronizados — sobretudo, no campo moral —, sendo incentivado também a fazer uso de produtos de um tipo de mercado — no caso protestante, chamam-no de “gospel”.

A famigerada teologia da prosperidade tem relação direta com a lógica do capitalismo. Baseada na idéia de que Deus quer que todas as pessoas desfrutem de um estado próspero, a teologia da prosperidade prega que se os crentes tiverem fé suficiente para pedir aquilo que querem obter, demonstrando essa fé com doações generosas, eles receberão em abundância. Esse discurso se torna uma alternativa para muitos homens e mulheres que, embora necessitados, estão dispostos a apostarem em meio a várias opções ofertadas pelo neoliberalismo. Ou seja, fazer uma fezinha na loteria é mais arriscado do que depositar todas as fichas no gazofilácio divinizado.

Isso é endêmico nas religiões — cada um que faça a comparação com sua própria instituição, eu fiz dentro da minha; se não gostar dos símbolos religiosos, observe, por exemplo, os shoppings, são a mesma coisa, só que templos do capital (neste caso, até mais eficientes). Soa atraente aos seres humanos a idéia de acreditar em ajuda do além para a solução de seus problemas. É uma espécie de bengala, como apostar na Mega Sena. Melhor ficar rico no estalar dos dedos do que trabalhar dignamente para se sustentar — não para enriquecer —, pois o sonho de um caminho mais fácil para a vida é arquetípico e todos querem trilhá-lo. Às instituições religiosas resta a tentação de cobrar o pedágio para este que é o paraíso perdido dos humanos. Lá nas terras da mãe África, de onde todos saímos, ficou nossa mais primeva casa. Quanta saudade! Libertar disso parece tão difícil como perder as bengalas. Não aprendemos ainda que o caminho de volta é assaz difícil e quase impossível de se fazer. Nesse impasse, melhor insistir na possibilidade de um atalho vestido de liberdade, mas com corpo de ilusão. Fechar os olhos para a realidade e fingir que nada está acontecendo. Assim, o neoliberalismo se sustenta na esteira da religião, enquanto a humanidade vai por água abaixo.

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9 Comentário(s):

  • At 12 de dezembro de 2007 18:36, Blogger Cris said…

    Ola!Vc foi em meu Blog: http://crisfrenesi.blig.ig.com.br/

    E comentou no texto:"Eu matei Gezuz".

    Realmente acabamos falando do mesmo assunnto rsrs, infelizmente claro pq eu preferia não ter esse tipo de assunto pra falar. =[

    Bjks e vlw pela visita. ^^

     
  • At 12 de dezembro de 2007 19:18, Blogger Alysson Amorim said…

    Meu Amigo Felipe,

    Como um espaço ideal de resistência as insanidades do deus mercado - com toda suas vicissitudes e humores - torna-se não menos que o local mais apropriado para adoração deste mesmo deus-demônio? Aguarde o dia, meu caro, em que o pão da ceia será o Bic Mac e o vinho a Coca-Cola. Então estaremos no Apocalipse.

    Abração!

     
  • At 12 de dezembro de 2007 20:25, Blogger Felipe Fanuel said…

    Olá, Cris
    Seja sempre bem-vinda aqui. Queria também não falar disso. Fazer o quê? É a dura realidade! Demoraremos aprender a andar sem bengalas.

    Alysson,
    A sua última frase é tão antológica que merece ser pregada na frente das igrejas como se fossem as teses de Lutero. Sua pergunta retórica inicial é fruto de um mistério não tão misterioso assim: as pessoas querem apostar. Lugar é que não falta! Vale a pena conversar melhor sobre isso, é claro, se vc não estiver cansado deste exaustivo assunto — como bem lembrou a colega assima, melhor seria não ter esse tipo de assunto para falar.

    Abraços.

     
  • At 12 de dezembro de 2007 22:16, Blogger Tamara said…

    Querido, Fanuel!

    O tempo está correndo a 120km/h (rs), estou tentando acompanhá-lo, mas acho que não ando em boa forma (rs).

    Isso tudo para dizer que tou vivendo numa correria. Trabalho, fisioterapia, aula de yôga e casa.
    Mas eu vou organizar isso tudo e volto à ativa.

    Reservei esse tempinho para agradecer suas palavras, que significaram muito para mim.

    Eu também admiro muito o que escrever e como escreve. A recíproca é verdadeira.

    B-joletas e até

     
  • At 13 de dezembro de 2007 16:26, Blogger Edson Marques said…

    Felipe,

    quando li "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", do Max Weber, não gostei. Para mim, então, bastava "O Capital". E ainda hoje acho que Marx é quem melhor explica o capitalismo. E, por conseqüência, o neoliberalismo.


    Mas, agora, retorno a Max Weber. Ele é bom.


    Juro que eu não sei o significado de gazofilácio...


    Abraços, flores, estrelas.

     
  • At 13 de dezembro de 2007 18:41, Blogger Alysson Amorim said…

    Caro Felipe,

    Certamente um bom papo sobre o tema em questão seria muito apropriado, embora não exatamente prazeroso.

    Política e coisas do gênero são assuntos brutos, embora necessários.

    Fico no aguardo de uma boa oportunidade.

    Abração.

     
  • At 14 de dezembro de 2007 22:59, Blogger Marlene Maravilha said…

    Quantas verdades Felipe!!! Estou totalmente de acordo e assino contigo! A humanidade vai mesmo por agua a baixo...
    Excelente texto! Parabéns!
    Muita paz e um lindo final de semana!
    beijo

     
  • At 15 de dezembro de 2007 06:45, Blogger Deepak Gopi said…

    ola amigo
    how is life going ?

     
  • At 18 de dezembro de 2007 01:38, Blogger [xmitzx] said…

    você leu esse tema do blog do Estevan??? http://www.estevam.org/teologia_digital/prosperidade/

    É "quase" o mesmo tema (ou é o mesmo tema).

    É "interessante" como as pessoas se rendem as facilidades pregadas na igrejas hoje em dia, (esse até será o meu próximo texto) deixando para trás os ensinamentos de Cristo que de fato são os que salvam, quem quer moleza não é esse o lugar, a cada dia se torna mais dificil para aqueles que querem de fato ser servo do Senhor e fazer as suas obras, sem essas maresias do homem.

    Um belo texto, acho que vou cita-lo quando for postar o meu amanhã.

    Abraços

    [xmitzx] http://xmitzx.blogspot.com/

     

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