28.6.09

Para proteger a dúvida

Quero falar inspirado no artigo do literato Gustavo Bernardo ("A qualidade da invenção"), que propõe, a partir do axioma cartesiano dubito ergo sum, uma reflexão duvidosa sobre “a qualidade do pensamento da literatura e do pensamento sobre a literatura”. O autor critica uma equivocada tese de que “quando o ser humano se envolve demais com ficção, talvez tenha dificuldade de se adaptar à realidade presente”.

A reação de Bernardo se dá através de uma discussão sobre ficção e realidade, mostrando que desde Dom Quixote, criado por Cervantes no fim da Idade Média — época histórica onde se praticou o crime da queima de livros e de idéias para silenciar ameaças aos ditames da igreja cristã —, a ficção é classificada como loucura por ser algo fora da realidade. Segundo o autor, o padrão para se qualificar uma obra literária não deve ser a semelhança com a realidade física, mas a dessemelhança.

A afirmação de que “a ficção não copia a realidade, mas a representa” abre caminho para as duas teses centrais do artigo: “[1] a ficção é boa se e somente se não tem tudo a ver com a realidade; [2] a ficção é boa se e somente se não tem tudo a ver com o leitor.” Primeiro, Bernardo acredita que a ficção é mais honesta do que a não-ficção, porque a ficção “desrealiza o real para criar um novo real mais seguro”, trazendo, ao contrário do real, mais certezas do que dúvidas. “Ela se disfarça, mas avisa que está se disfarçando”.

Para explicar o seu segundo argumento, Bernardo recorre ao conceito de catarse, mostrando o que está por trás da relação entre leitor e personagem. Ele inverte os papéis, quando constata que o “o leitor não se identifica propriamente com o personagem, mas o personagem é que oferece ao leitor uma identidade”. Isto resulta em uma experiência estética, onde o leitor assume, no decorrer da leitura, uma nova identidade.

Aqui a literatura é qualificada através de uma perspectiva oposta à ideia difundida no senso comum de que a ficção está fora da realidade. O fato é que a ficção é um espelho da realidade. Por isso, se o ser humano precisa inventar — sonhar, fantasiar —, é porque necessita de algo, digamos, além do aparente, já que seu caráter ontológico se engendra por meio do conflito de ser — real — e não ser — ficção.

Por que não dizer, portanto, que a ficção constitui um patrimônio do inconsciente coletivo da humanidade, à medida que produz e reproduz imagens e arquétipos os quais denunciam o ser humano em todas as suas dimensões? Ela, por certo, não se prende ao aparente, mas acessa quaisquer mundos necessários para se compor. Assim, o papel do leitor é continuar suspeitando da realidade, imaginando uma outra realidade, ao contrário de buscar o real sentido de um texto (será que ele existe?). Isto sim é “saber proteger a dúvida”.


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20.6.09

Tem belezas minha terra

Quero uma pena que escreva
Esta flor que agora vejo,
Sem óculos.

Terra escura,
Mato alto.
Lá vai o canto soberano
E uma pena que quer o céu.
Adeus, passarinho!

Que direi destes olhos ariscos?
Ela me quer silencioso.
Basta um leve movimento,
Rasteja lagartixa mato a dentro.

Desejo assim jamais se tem.
Prazer, labor e mel,
Flor pr’abelha é céu.
Que delícia de vida!
Soa assim um voo sem fim.

Sombra que esconde o sol
Que me aquece
Do frio
Que me entristece.

Já tirei a fotografia da parede,
Pois sinto esta cidade-belezas
Sem dela mais ser.
Deus é Pai! Drummond está certo.
“Mas como dói!”


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7.6.09

A impossibilidade da transgressão

No romance Wuthering Heights (ou Morro dos Ventos Uivantes), a autora inglesa Emily Brontë pinta as personagens Heathcliff e Catherine não do modo convencional para uma sociedade da sua época, como a sociedade vitoriana, marcada por uma rígida moral — muito influenciada pelas igrejas evangélicas, aliás. Ao contrário, Heathcliff e Chatherine são personagens transgressivas, sobretudo porque fazem aquilo que não é esperado de pessoas como eles. Desempenham, assim, o papel do Outro no ambiente onde estão, já que a condição de alteridade é exatamente uma condição de diferença. Suas atitudes no romance são decisivas para criar problemas na suposta atmosfera de harmonia na qual vivem.

Desde sua infância, Heathcliff é um estranho em um lugar onde estranhos não são bem-vindos. Adotado, ao entrar na família Earnshaw, ele tem problemas com Hindley, que vai desprezá-lo por causa da preferência do pai para com o pobre Heathcliff que fora trazido das ruas de Liverpool. Contudo, Heathcliff não tem identidade, porque ele não tem origem. Até mesmo seu nome não pertence a ele — vem de um filho morto da família que o adotou. Além disso, ele é fisicamente diferente das pessoas ao seu redor — ele era “escuro como se tivesse vindo do demônio”. “Satanás”, “demônio” e, mais tarde, “vampiro” são palavras que a narradora Nelly, empregada da família, usa para expressar como ele é visto.

Quanto mais Heathcliff é rejeitado mais ele quer se vingar daqueles que o fazem sofrer. Ele desaparece por um tempo e volta muito poderoso e rico. Desse modo, muda sua posição da marginalidade para a centralidade. Pouco a pouco, ele obtém poder para perseguir aquilo que mais ambiciona: Catherine.

No entanto, a ambição de Catherine se difere da ambição de Heathcliff. Ela é atraída pela ideia de ser uma lady como esposa de Edgar Linton, apesar do amor eterno que sente por Heathcliff, a quem quer proteger com essa atitude. Só que esse triângulo amoroso não funciona. Tanto Linton como Heathcliff a forçam a decidir entre um deles. Ela não decide — sua ambição não pode ser alcançada. Ela morre com tal frustração.

Para Heathcliff, este não é o fim. Ele convence o/a leitor/a de que seu amor por Cathy é possível até mesmo após a morte. Ele leva esta ideia tão a sério que quer ser enterrado junto com o corpo dela.

Esta história, portanto, desafia a sociedade vitoriana. Personagens marginais, tais como um estranho e uma mulher, agem em lugares onde não deveriam agir. Esta é uma das maiores importâncias do romance de Brontë — sua obra estava à frente de seu próprio tempo. De fato, Wuthering Heights era uma exceção até mesmo para a literatura daquele momento. Não custa nada lembrar que, de certa maneira, temos aqui uma tragédia, e tragédia significa impossibilidade. Ora, se com Aristóteles aprendemos que a tragédia imita “homens superiores”, por que não dizer que as personagens de Brontë se encontram em um nível mais elevado?


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